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Kátia Flávia
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Influenciadora é morta pelo marido 12 dias após denúncia no TikTok

Sara Gilson acusou o marido de pedofilia num vídeo que rodou o mundo e foi morta a tiros por ele dentro de casa, em Oklahoma. Ela já havia pedido medida protetiva um mês antes.

Kátia Flávia

27/07/2026 9h26

Sara Gilson foi morta 12 dias após publicar um vídeo no TikTok denunciando o marido.

Sara Gilson foi morta 12 dias após publicar um vídeo no TikTok denunciando o marido.

Sara Duffey, de 43 anos, conhecida nas redes como Sara Gilson, foi morta a tiros pelo marido, Jeremiah Shawn Duffey, de 48, na cidade de Collinsville, no estado americano de Oklahoma. Os dois foram encontrados mortos com ferimentos de bala no dia 23. Vizinhos ouviram gritos e sons de disparo por volta das 23h15 e chamaram a polícia. As autoridades locais seguem investigando, mas afirmaram que tudo indica que ele a matou antes de tirar a própria vida. Doze dias antes, ela havia publicado no TikTok o vídeo que transformou a vida particular dela em assunto planetário, dizendo estar se preparando para o documentário que a Netflix faria sobre o marido que ela acabara de descobrir ser pedófilo. Escreveu na legenda que gostaria que fosse brincadeira. Marcou o vídeo com as etiquetas de reviravolta e documentário. Ninguém riu depois.

As acusações contra Jeremiah começaram quando um treinador de basquete juvenil o flagrou beijando e acariciando uma menina de 15 anos. A jovem contou à mãe que vinha recebendo mensagens de texto inapropriadas dele, entre elas convites para que fosse até o quarto de hotel durante uma viagem, e disse que ele teria oferecido dinheiro para que ela ficasse calada. Em 10 de junho, Sara pediu uma medida protetiva contra o marido, alegando no pedido que ele tinha uma arma de fogo, fazia ameaças de suicídio e apresentava comportamento preocupante. No mesmo dia, a mãe da suposta vítima também entrou com um pedido de proteção para manter o homem longe da filha. Estava tudo ali, por escrito, num documento oficial, um mês e treze dias antes do desfecho.

O comportamento digital dela merece leitura cuidadosa, porque explica muita coisa sobre como mulheres em situação de risco se comunicam hoje. O vídeo passou de 1,3 milhão de curtidas e reuniu quase 36 mil comentários. Sara usou humor seco, quase de deboche, para dar uma notícia devastadora, e o público respondeu em massa dizendo torcer para que ela e as crianças estivessem bem. Ela agradeceu nos comentários. Aquele tom irônico funcionou como armadura pública e, ao mesmo tempo, como pedido de socorro traduzido para a linguagem da plataforma. A internet transformou a denúncia em viral, o viral virou pressão, e a pressão convive mal com um homem armado dentro de casa. Não estou dizendo que ela errou ao falar. Estou dizendo que o sistema falhou em protegê-la depois que ela falou, que é uma coisa completamente diferente.

E fico com o detalhe que não sai da minha cabeça. Duas mulheres, no mesmo dia, foram ao mesmo tribunal pedir proteção contra o mesmo homem, uma pela própria vida e outra pela filha. Os papéis existiam. As alegações estavam registradas. O risco tinha nome, endereço e arma declarada no pedido. Quem trabalha com isso sabe que o intervalo entre a denúncia e a retaliação é o período mais perigoso da vida de uma mulher, e esse caso virou a demonstração mais crua desse fato numa semana só. No Brasil, o Ligue 180 existe justamente para esse intervalo. Guardem o número. Passem adiante. E se alguém perto de você estiver contando algo parecido em tom de piada, ouça como se não fosse.

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