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Kátia Flávia
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Influencer, trans e ialorixá: o desafio de Ariadna de ser mãe de santo em tempo real nas redes

Primeira mulher trans do BBB, Ariadna Arantes assume o posto de mãe de santo, ganha filhos espirituais e precisa equilibrar a missão do terreiro com haters, publis e algoritmos.

Kátia Flávia

13/02/2026 11h17

Primeira mulher trans do BBB, Ariadna Arantes assume o posto de mãe de santo, ganha filhos espirituais e precisa equilibrar a missão do terreiro com haters, publis e algoritmos.

Eu, Kátia Flávia, estava tranquila rolando o feed, aquele desfile de closes, pele iluminada e publi de sempre, quando dou de cara com Ariadna Arantes vestida de branco, séria, concentrada, falando de axé. Quase deixei cair o celular no tapete. A primeira mulher trans do BBB resolveu viver a fé em modo público, sem modo avião espiritual. Virou ialorixá, ganhou filhos de santo e agora encara um desafio digno de novela das nove, comandar um terreiro enquanto lida com contratos, comentários atravessados e o humor instável dos algoritmos.

O comunicado não veio em nota fria nem em textão defensivo. Veio em vídeo, direto do terreiro, com Ariadna de branco, contas no pescoço, símbolos sagrados ao redor e uma calma que não costuma render tantos likes quanto um biquíni estratégico. Na legenda, ela falou em missão sagrada, dessas que não nascem de impulso nem de modinha espiritual. Contou que o chamado veio com o tempo, com vivência, com amadurecimento. Celebrou os primeiros filhos de santo e avisou, com todas as letras, que dali em diante a ex personagem de reality também passava a ser guia espiritual. Para quem só acompanhava viagem, selfie e cupom de desconto, aquilo foi uma guinada daquelas que fazem o público piscar três vezes para ver se entendeu direito.

Ser ialorixá, no caso de Ariadna, não cabe só no barracão. Cabe também no quadradinho do Instagram. Cada postagem vira uma negociação silenciosa com o algoritmo, essa entidade moderna que distribui alcance como se fosse bênção. Existe o sagrado, com seus resguardos, segredos e limites, e existe a vida pública de quem paga boleto com engajamento. Mostrar ou não mostrar. Postar ou guardar. Explicar ou deixar no mistério. Um story de roupa branca pode virar aula de Candomblé para curiosos ou munição para preconceituosos. Ainda assim, ao abrir essa porta, Ariadna faz algo que muita gente nunca fez, mostra que terreiro não é folclore distante, é vida cotidiana, é fé praticada fora da caricatura.

Ariadna já sabe, na pele digital, que fé também cobra pedágio. Em 2020, ela perdeu cerca de 66 mil seguidores depois de publicar uma foto em um terreiro. Vieram ataques, mensagens atravessadas e aquele velho pacote de intolerância religiosa. Ela respondeu como quem já cansou de pedir licença, pediu respeito e seguiu em frente. Agora, ao se apresentar como mãe de santo, ela se coloca outra vez na linha de tiro, consciente de que parte do público pode virar as costas. Ao mesmo tempo, vira escudo simbólico para quem vive a mesma fé escondido, com medo de perder trabalho, seguidores ou paz. O caso dialoga com episódios recentes de artistas como Anitta, que também viu números despencarem ao mostrar sua ligação com o Candomblé, provando que o discurso de diversidade costuma falhar quando o axé entra em cena.

Existe ainda uma camada que deixa tudo mais potente. Ariadna é uma mulher trans ocupando o posto máximo de liderança em um terreiro. Um corpo historicamente atacado agora sentado no lugar da autoridade espiritual. Primeira trans do BBB, ela já transformou a própria trajetória em bandeira, e agora leva essa vivência para dentro do sagrado. Em postagens antigas, ela celebra sua ligação com Oxumarê, orixá dos ciclos e das transformações, combinação que parece roteiro escrito por alguém muito inspirado. Em muitas casas de santo, corpos dissidentes encontram acolhimento real, mas fora delas o preconceito segue feroz. Ao assumir publicamente o cargo de ialorixá, Ariadna vira referência visível para pessoas LGBT+ que também vivem o axé e raramente se veem representadas.

Nos textos sobre a iniciação, Ariadna repete que segue com humildade, respeitando hierarquia, tempo e aprendizado. Faz questão de agradecer ao babalorixá que a formou e lembra que o sagrado não tolera atropelo nem improviso. Existe preparo, estudo e entrega por trás da nova função. Ao mesmo tempo, ela não abandona o humor, os filtros, as viagens e o jeito influencer de existir online. A tentativa é clara, provar que dá para ser mãe de santo sem abrir mão da própria persona digital. No meio dessa equação delicada, Ariadna transforma a timeline em um diário público de uma missão ancestral vivida em tempo real. Para mim, Kátia Flávia, isso é o verdadeiro plot twist do feed brasileiro. Axé, close e algoritmo dividindo o mesmo espaço. Quero ver quem segura esse enredo.

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