A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de inovação e eficiência para se tornar um tema central de segurança nacional. É o que revela uma pesquisa recente da Allianz Commercial, segundo a qual 32% dos empresários brasileiros apontam a IA como o principal fator de preocupação em termos de segurança no mercado. O dado chama atenção não apenas pelo percentual elevado, mas pela velocidade da mudança: no ano passado, a tecnologia ocupava apenas a décima posição no ranking.
O avanço acelerado da IA, aliado à ausência de uma regulação clara e de uma estratégia nacional consistente, ajuda a explicar o salto nas preocupações do setor produtivo. À medida que sistemas automatizados passam a influenciar decisões críticas, os riscos deixam de ser apenas tecnológicos e passam a envolver governança, soberania e estabilidade institucional.

Para José Paulo Abi Jaudi, CEO da UPBI, o cenário atual exige mais clareza sobre limites, responsabilidades e uso estratégico da tecnologia.
“A adoção da inteligência artificial no Brasil aconteceu em ritmo muito mais rápido do que a construção de regras claras sobre seu uso. É fundamental definir quem responde por decisões automatizadas, como os dados são utilizados e quais são os critérios de segurança. Sem isso, a IA deixa de ser uma vantagem competitiva e passa a representar um risco real para empresas e para o país.”
O executivo ainda destaca que a solução não é impedir o uso da IA, mas criar clareza e definir limites para seu uso: “A IA só se tornará um vetor sustentável de crescimento quando a velocidade da inovação caminhar junto com a maturidade regulatória e institucional.”, explica.

A transformação da IA em uma questão de segurança nacional está diretamente ligada ao papel que os dados passaram a desempenhar na economia e no Estado. Segundo Luiz Ugeda, doutor em Direito pela Universidade de Coimbra, doutor em Geografia pela UnB e sócio de SPLAW Advogados, esse ponto não é tecnológico, mas político e institucional:
“A inteligência artificial vira questão de segurança nacional no momento em que passa a operar sobre dados que estruturam decisões do Estado, do mercado e das cadeias produtivas. Quando registros públicos, dados administrativos e informações territoriais alimentam modelos automatizados que influenciam crédito, comércio, fiscalização, logística e políticas públicas, a IA deixa de ser ferramenta e passa a ser infraestrutura de poder.”
Nesse contexto, Ugeda avalia que o Brasil ainda não está preparado para lidar com o tema de forma estratégica e que o desenvolvimento da IA passa necessariamente por uma política sólida de dados públicos;
“O problema não é falta de modelos ou de talento, mas a ausência de uma estratégia sólida de dados públicos. Grande parte das bases públicas no Brasil ainda é instável, fragmentada e carece de padrões consistentes de atualização.
“A insegurança percebida pelo mercado, segundo o especialista, não nasce da tecnologia em si, mas da fragilidade institucional que a sustenta.
“Não existe IA confiável sem dados públicos estáveis, acessíveis e tecnicamente consistentes. Quando órgãos públicos alteram metodologias sem previsibilidade ou mantém cadastros oficiais imprecisos, qualquer aplicação de IA se torna juridicamente frágil e economicamente arriscada.”
Os impactos dessa fragilidade já são sentidos de forma concreta. A falta de rastreabilidade e confiabilidade dos dados compromete acordos internacionais, como o Mercosul–União Europeia, afeta cadeias produtivas, trava investimentos e expõe o país a questionamentos regulatórios externos.Para que a IA se consolide como instrumento de proteção nacional, de fato, Ugeda defende que o Brasil fortaleça sua base informacional antes de qualquer ambição tecnológica: “Sem uma base informacional sólida, aplicações de IA tendem a ampliar riscos jurídicos, regulatórios e institucionais, em vez de mitigá-los.”, conclui.