A deputada estadual eleita Eduarda Campopiano (PL) atacou Erika Hilton (PSOL) nas redes sociais após o resultado das eleições em São Paulo. Em publicação no X, a bolsonarista se referiu à deputada federal, que é uma mulher trans, como “homem biológico”, expressão usada para contestar sua identidade de gênero.
Eu estava diante do notebook, no quarto novo, quando li a mensagem e fechei a tela por um instante. Porque eleição se ganha com voto, proposta e disputa política, não tentando diminuir a existência de uma mulher para comemorar a própria vitória.

Campopiano, de 23 anos, recebeu 1,9 milhão de votos e se tornou a mulher mais votada da história da Assembleia Legislativa de São Paulo. Ao provocar Erika, escreveu sobre ela “nunca ocupar o espaço da mulher mais votada de São Paulo”, numa referência às votações diferentes conquistadas pelas duas.
Erika Hilton, por sua vez, foi reeleita deputada federal com 1,5 milhão de votos e se tornou a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados. Eu respirei fundo e voltei à cadeira: as duas têm resultados expressivos, mas uma conquista não autoriza ninguém a apagar a identidade da outra.
A fala de Campopiano foi criticada por reproduzir uma formulação transfóbica já empregada por integrantes do PL. Lucas Pavanato, apontado como padrinho político da deputada estadual eleita, também repetiu a expressão contra Hilton em um vídeo publicado no domingo.
Eu deixei o celular longe por alguns minutos, porque não há ironia que dê conta quando a ofensiva mira uma população que enfrenta violência e exclusão todos os dias. Erika é mulher, ponto. Isso não entra em disputa eleitoral, não depende de urna e não precisa da autorização de adversário político.
A deputada do PSOL preside a Comissão da Mulher da Câmara e defende pautas como o fim da escala 6×1. Campopiano se apresenta nas redes como “maior inimiga das feministas” e afirmou que a disputa contra propostas progressistas “está só começando”.

Eu olhei pela janela antes de voltar ao texto e deixei meu veredito: a política pode ser dura, mas não deveria normalizar ataques contra a identidade de alguém. Debater ideias é uma coisa; usar transfobia como troféu é outra, bem mais grave.