Sentei na poltrona do avião, ainda com o telefone ligado e a comissária me olhando com aquele olhar que significa “senhora, é sério”, e a mensagem entrou. Hotelaria. Quarenta milhões. Campo Grande. Guardei o celular como boa moça e passei o voo inteiro montando a conta de cabeça, porque número bonito me deixa mais acordada que café.
A HCC Hospitality inaugurou o Plaza Belmar, na capital de Mato Grosso do Sul, com investimento de aproximadamente R$ 40 milhões. São 192 apartamentos divididos em seis categorias, centro de eventos para até 370 pessoas e restaurante aberto também para quem não está hospedado. O endereço fica em frente à Praça Belmar Fidalgo, uma das regiões mais valorizadas da cidade, e o empreendimento já entra na lista dos maiores hotéis de Campo Grande em número de quartos. Chegou grande. Chegou sentando na cadeira da frente.

Agora vamos ao que interessa de verdade, porque a graça dessa operação está no centro de eventos. A estrutura tem mezanino de apoio para alimentação, o que permite dois eventos rolando ao mesmo tempo sem que ninguém invada a operação do restaurante. Traduzindo para quem não vive de planilha: convenção de manhã, treinamento à tarde, festa à noite, e o almoço do hóspede comum acontecendo em paz no meio disso tudo. Eventos corporativos são a receita mais previsível da hotelaria, porque empresa não cancela convenção por causa de chuva nem por causa de crise no casamento.
O produto foi desenhado com a mesma frieza. Tem apartamento com mini cozinha para estadia longa, que é o executivo que passa três meses tocando um projeto e não aguenta mais room service. Tem academia, TV com streaming integrado e arquitetura contemporânea com floreiras suspensas para a foto de rede social. E tem painel solar, sensor de presença e sistema inteligente de economia de energia, que ninguém posta no Instagram, mas aparece bonito na margem operacional todo mês. A operação começa com cerca de 60 funcionários diretos.


As falas oficiais também merecem leitura atenta. A gerente-geral, Tassila Azambuja, falou em atender do executivo em viagem de negócios ao turista que vai conhecer o estado. Já Maria Cecília Terres, do marketing da HCC Hospitality, cravou que a chegada marca a entrada da administradora na região e que o objetivo é elevar o padrão da hotelaria local. Anotem essa expressão. Quando uma rede diz que veio elevar o padrão de uma praça, ela está mandando um bilhete perfumado para a concorrência da cidade inteira, e a concorrência entendeu.
Pousei em Ibiza pensando nisso, o que já diz muito sobre a minha saúde mental. Enquanto meio mundo acha que dinheiro grande só se move em avenida chique de São Paulo, tem gente colocando R$ 40 milhões em cima de uma praça em Campo Grande e apostando que o executivo em trânsito vale mais que o turista de biquíni. Spoiler: costuma valer mesmo. Executivo dorme durante a semana, paga tarifa cheia e não reclama do café da manhã.