A chegada de Gloria Vanique ao comando do Mulheres, na TV Gazeta, é uma movimentação legítima. Profissional respeitada, trajetória sólida, reputação construída com jornalismo sério. Não há nada de errado com a escolha. Pelo contrário, emprego gerado e currículo reforçado sempre merecem aplauso.
A questão não é a jornalista. É o formato.
A TV aberta, especialmente a local, vive uma corrida contra o tempo. Enquanto o digital testa linguagem, ritmo e ousadia todos os dias, parte da televisão segue apostando em modelos conhecidos, seguros, previsíveis. O “Mulheres” é um símbolo disso. Um programa tradicional, com público fiel, mas também com limites claros de expansão.
O público da Gazeta é conhecido. Mulheres adultas, majoritariamente classes A, B e C, donas de casa, consumidoras qualificadas e leais. Esse público existe, consome e tem valor comercial. O problema é outro. Ele não cresce.
A pergunta central é simples. Gloria Vanique conseguirá romper essa bolha sem que o formato permita isso?
Popularizar não é simplificar. É ampliar. Falar com São Paulo inteira exige linguagem, pauta e estética capazes de alcançar Santana, São Caetano, Jardim Ângela e Paraisópolis. Exige diálogo com quem hoje não liga a TV de manhã porque já está no celular, no ônibus ou no trabalho informal.
E aí entra o ponto mais sensível. O mercado publicitário.

Marcas querem escala, impacto e conversa real com diferentes camadas da cidade. Um produto percebido como excessivamente elitizado, engessado ou distante da vida urbana perde competitividade frente ao digital. Não por falta de qualidade, mas por falta de alcance simbólico.
A TV Gazeta tem tempo para essa transição? Quer fazer essa transição? Vai permitir que Gloria Vanique seja mais do que uma boa apresentadora dentro de um molde antigo?
Essa é a aposta. Não é pessoal. É estratégica.
No fim, o sucesso dessa mudança não depende do talento da jornalista, que é indiscutível. Depende de até onde a emissora está disposta a ir para sair da zona de conforto. Porque hoje, na disputa com o digital, jogar seguro é o maior risco.