Kátia já tinha saído do cabeleireiro, depois daquela escova rápida só para “dar um trato”, e seguia para casa, no Cosme Velho, quando recebeu uma ligação. Desligou o telefone e começou imediatamente a fazer o que toda noveleira profissional faz numa hora dessas: puxar personagens da memória. Ana Preta. Rosemere. Laurinha Figueroa. Gente, para tudo. Falar da história da novela brasileira sem falar de Glória Menezes é simplesmente impossível.

E não é força de expressão. Glória estava lá em 1963, em “2-5499 Ocupado”, considerada a primeira telenovela diária do Brasil. Ela protagonizou a produção da TV Excelsior ao lado de Tarcísio Meira. Quando o país ainda estava aprendendo a acompanhar uma história todos os dias pela televisão, Glória já estava no centro da sala dos brasileiros.

1. Ela ajudou a inaugurar a novela diária
“2-5499 Ocupado” é um daqueles títulos que talvez a geração do streaming nunca tenha assistido, mas precisa conhecer. Glória interpretava Emily, uma presidiária que trabalhava como telefonista e se apaixonava pela voz de Larry, vivido por Tarcísio. A novela entrou para a história como pioneira na exibição diária no país. E lá estava ela.
2. Glória participou da construção da própria Globo
Em 1967, chegou à Globo para viver a protagonista de “Sangue e Areia”. Depois vieram “Passo dos Ventos”, “Rosa Rebelde”, “Irmãos Coragem”, “O Homem que Deve Morrer”, “Cavalo de Aço” e “O Semideus”. Ao longo da carreira, foram dezenas de novelas na emissora. Ela não chegou quando tudo já estava pronto. Estava ali enquanto a teledramaturgia da Globo se transformava no fenômeno que conhecemos.
3. Em “Irmãos Coragem”, uma personagem virou três
Em 1970, Janete Clair colocou uma senhora missão nas mãos de Glória. Em “Irmãos Coragem”, Maria de Lara apresentava três personalidades distintas: Lara, Diana e Márcia. Não era trocar figurino e pronto, meu amor. Era fazer o público reconhecer três mulheres na mesma atriz. Glória entregou.
4. Ana Preta saiu da novela e foi parar nas ruas
Em “Pai Herói”, de 1979, veio Ana Preta, dona do Flor de Lys. Independente, popular, divertida e mãe solteira, virou uma das personagens mais lembradas da atriz. O visual também pegou: a flor no cabelo e as roupas de Ana foram copiadas por mulheres fora da televisão. Aí Kátia respeita. Personagem que vira moda deixou de ser só personagem e virou fenômeno.
5. Ela nunca ficou presa à mocinha
Esse talvez seja um dos grandes segredos da carreira. Glória podia fazer a mulher apaixonada, a sofisticada, a engraçada, a vingativa e, quando precisava, aquela criatura que fazia a gente passar raiva às oito da noite. Em vez de tentar repetir eternamente o papel que havia dado certo, mudou junto com a televisão.
6. “Brega & Chique” colocou duas gigantes frente a frente
Em 1987, Glória viveu Rosemere em “Brega & Chique”, de Cassiano Gabus Mendes, dividindo o protagonismo com Marília Pêra. Duas atrizes enormes, duas personagens populares e uma novela que ficou marcada na memória afetiva da televisão. Estrela segura não tem medo de dividir cena com outra estrela.
7. Laurinha Figueroa foi uma vilã para noveleiro nenhum esquecer
E então veio “Rainha da Sucata”, em 1990.
Glória virou Laurinha Figueroa, socialite falida, manipuladora, sofisticada e completamente obcecada por Edu, personagem de Tony Ramos. Era vilã, tinha humor e tinha aquele negócio que não se aprende em curso nenhum: quando Laurinha aparecia, você olhava para a televisão. A morte da personagem teve tamanha repercussão que virou notícia de jornal.
8. Ela atravessou décadas sem virar participação de luxo
Depois de tudo isso, Glória poderia simplesmente aparecer de vez em quando para receber homenagem. Fez o contrário. Vieram “A Próxima Vítima”, “Torre de Babel”, “Porto dos Milagres”, “O Beijo do Vampiro”, “Da Cor do Pecado”, “Senhora do Destino”, “Páginas da Vida” e “A Favorita”, entre outros trabalhos.
Era uma geração nova de atores chegando e Glória continuava ali, trabalhando.

9. Mais de 50 anos separam a primeira novela diária de sua última novela
Em “Totalmente Demais”, exibida entre 2015 e 2016, Glória interpretou Stelinha, mãe de Arthur, vivido por Fábio Assunção. Foi sua última novela.
Agora faça essa conta com Kátia: de “2-5499 Ocupado”, em 1963, até “Totalmente Demais”, passaram-se mais de cinco décadas. Mudou a televisão, mudou o jeito de atuar, chegou a cor, veio o controle remoto, a internet, o celular, o streaming. E Glória atravessou tudo.

10. Antes da novela, ela já estava num capítulo histórico do cinema brasileiro
E ainda tem essa, porque currículo pouco é bobagem.
Em 1962, Glória participou de “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. No ano seguinte, estaria na primeira novela diária brasileira. É cinema brasileiro fazendo história de um lado e televisão brasileira começando outra história do outro.
Kátia chegou ao Cosme Velho com uma certeza de noveleira: discutir quem foi “a maior” sempre vai render briga de sofá. Fernanda Montenegro, Regina Duarte, Eva Wilma, Tônia Carrero, Renata Sorrah, Susana Vieira e tantas outras gigantes estão nessa conversa.
Mas Glória tem um argumento que pouquíssimas conseguem apresentar: ela estava praticamente no começo de tudo e continuou relevante por mais de meio século.
A televisão ficou colorida, trocou de formato, ganhou internet e foi parar dentro do celular.
Glória Menezes atravessou todas elas. E nenhuma noveleira esquece.