Eu tive que sentar para processar, porque a GloboNews entrou naquela zona perigosíssima em que o jornalismo resolve brincar de PowerPoint dramático e acaba virando personagem do próprio escândalo. Depois da repercussão da arte exibida no Estúdio i sobre Daniel Vorcaro, o canal foi ao ar registrar um pedido de desculpas e admitiu, com todas as letras, que o material estava errado, incompleto e desalinhado com seus princípios editoriais. Meu amor, isso já não é bastidor, isso já é cena de novela corporativa com direito a maquiagem borrada no intervalo. A própria emissora reconheceu que a peça não deixou claro o critério de seleção das informações e ainda misturou contatos institucionais com relações pessoais e contratuais, um coquetel que, na televisão ao vivo, costuma explodir no colo de quem achou a ideia brilhante demais. 
O trecho lido no ar foi daqueles que todo mundo entende rapidinho, mesmo sem diploma, sem manual e sem paciência. A GloboNews disse que a arte apresentada na sexta, 20 de março, tinha o objetivo de mostrar conexões de Vorcaro com políticos e acessos relevantes, mas confessou que o conteúdo embaralhou categorias diferentes e deixou nomes de fora. A correção foi além da forma. A emissora admitiu que o material também estava incompleto porque não incluiu nomes já públicos em desdobramentos do caso Master, como ministros do Supremo, políticos e ex-diretores do Banco Central que estão sob escrutínio policial. Aí eu te pergunto, meus fofoqueiros de elite, como é que alguém monta um painel desses, joga no telão e depois descobre que a lista saiu manca? Parece trabalho entregue às pressas por aluno que confundiu jornalismo com feira de teoria da conspiração. 

A confusão cresceu justamente porque o desenho visual colocava Lula, Gabriel Galípolo, Guido Mantega e o PT em destaque na narrativa sobre Vorcaro, o que abriu uma temporada de gritaria pública sobre enquadramento, critério e viés. A reação não veio só de político indignado de internet, veio também de gente que conhece a casa por dentro. Ex-jornalistas da Globo, como Neide Duarte e Ari Peixoto, criticaram o recurso visual e questionaram a falta de critério jornalístico no modo como as associações foram organizadas. Quando veterano da própria firma sai da plateia para dizer que a festa desandou, minha filha, o climão já está servido com gelo e rodela de limão. 
A esta altura, o que era para ser uma explicação gráfica virou um daqueles momentos em que o telejornal deixa de noticiar a crise e passa a fabricar outra, com cenário, elenco e repercussão própria. E eu acho especialmente delicioso, num sentido jornalístico e venenoso, ver uma emissora pedir desculpas porque uma arte supostamente explicativa ficou parecendo peça de acusação mal editada. A GloboNews tentou organizar o caos e acabou produzindo um barraco visual que precisou ser desfeito no ar, diante do público, com cara de retratação e gosto de constrangimento. Fica a lição mais básica do universo, da política e do meu grupo de WhatsApp, misturar tudo no mesmo quadro pode até render audiência, mas também rende vexame em HD.