Eu já estava na metade da caminhada com as amigas, contornando a Lagoa e tentando manter o passo, quando uma delas mandou o vídeo no grupo. Pronto: a conversa sobre joelho, tênis e quem tinha dormido mal acabou. Porque Barretos entregou palco, político, gritaria e Globo registrando tudo em rede nacional. O domingo não ia ficar quieto mesmo.
No coro ouvido durante a transmissão, parte das arquibancadas gritava: “Ei, Lula, vai tomar no c*”. A frase veio em meio à movimentação da festa, um dos maiores eventos de rodeio do país e tradicional ponto de encontro do agronegócio, setor em que a direita e o bolsonarismo têm presença forte.

Segui andando, mas uma amiga já queria saber se a Globo tinha abaixado o som. Não abaixou a tempo. E esse é o tipo de coisa que acontece quando a transmissão é ao vivo: a emissora pode controlar enquadramento, entrada, repórter e roteiro, mas não controla uma arquibancada cheia quando ela resolve transformar o fundo da matéria em palanque.
Flávio Bolsonaro, senador pelo PL-RJ e pré-candidato à Presidência, esteve no evento e subiu ao palco ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, que busca a reeleição. Em discurso, Flávio tentou associar sua campanha às demandas do agronegócio e afirmou que o setor estaria sendo atacado.
“Ultimamente, nosso agro tem sido muito atacado, tem ficado quase doente. Mas nós não vamos baixar a cabeça, vamos resgatar o nosso agro”, declarou. A fala foi recebida em um ambiente já politizado, com o público reagindo em coro contra Lula e reforçando o clima que tomou conta da abertura.

Numa pausa perto do trecho com mais sombra, parei para beber água e ouvi a melhor definição da situação: “Nem o rodeio escapou da eleição”. Pois é. Barretos sempre foi vitrine de sertanejo, bota, chapéu e agronegócio. Agora também virou cenário explícito da disputa presidencial, com a Globo de testemunha involuntária.
A caminhada continuou, mas o vídeo ficou rodando entre nós. Porque uma coisa é político discursar para uma plateia simpática; outra é a transmissão nacional deixar escapar o termômetro inteiro da festa. E em Barretos, pelo visto, o termômetro já está fervendo.