Eu estava aqui, tentando organizar as lembranças desse Brasil que foi aprendendo a sofrer diante da televisão, quando veio a notícia do velório de Gerson Brenner em São Paulo. E há certas despedidas que já chegam com um peso muito específico, porque não enterram só um ator, enterram também uma juventude interrompida, uma carreira quebrada no meio e um pedaço daquela dramaturgia dos anos 1990 que ainda mora na memória coletiva com camisa jeans, olhar de galã e trilha de novela.
O fato é bem direto. Gerson dos Santos Oliveira, o nosso Gerson Brenner, morreu aos 66 anos em decorrência de falência múltipla dos órgãos, segundo a informação publicada após a confirmação feita pela esposa, Marta Brenner. O corpo será velado na quarta-feira, 25, das 9h às 12h, em São Paulo, com cremação marcada para as 13h. É a formalidade inevitável da despedida, mas comovendo um público que, no caso dele, nunca esqueceu o tamanho da queda depois do auge.
E aqui entra aquele bastidor da memória pública que eu acho tão importante quanto o obituário seco. Gerson nunca saiu completamente da conversa brasileira porque a história dele foi forte demais para evaporar. O assalto de 1998, na estrada para gravar o último capítulo de Corpo Dourado, ficou tatuado no imaginário nacional. A bala atravessou o hemisfério esquerdo do cérebro, atingiu áreas ligadas à locomoção e à fala, e o ator passou a viver em cadeira de rodas, com sequelas que transformaram sua rotina e reescreveram brutalmente seu destino. Há tragédias que a TV noticia. Há outras que ela passa a carregar para sempre.

Antes disso, ele vinha daquele pacote muito típico de galã brasileiro que parecia pronto para atravessar décadas. Foi modelo, morou em Londres e na Grécia, desfilou para Jean Paul Gaultier e, na Globo, emendou títulos que ainda acendem a memória noveleira, Top Model, Rainha da Sucata, Lua Cheia de Amor, Perigosas Peruas, Deus nos Acuda, Vira Lata e Corpo Dourado. Era um homem bonito, claro, mas não só isso. Tinha aquela energia de protagonista que a indústria reconhece rápido, o tipo de presença que encaixa em cena e parece destinada a durar.
O mais doloroso nessa história é justamente o contraste que ela impõe sem pedir licença. De um lado, o rapaz que tentava a sorte no exterior, brilhava em desfile, colecionava novela e ocupava o espaço de galã com desenvoltura. Do outro, o homem que passou décadas enfrentando uma vida reduzida pela violência mais estúpida e mais brasileira possível. E eu nem digo isso para fazer literatura de sofrimento. Digo porque o caso de Gerson virou símbolo de uma perversidade nacional, a sensação de que uma bala atravessa não só um corpo, mas um futuro inteiro, e deixa todo mundo olhando sem saber muito o que fazer com tanta brutalidade.
Agora São Paulo recebe esse adeus final, com flores, horário marcado e a liturgia triste que a morte exige. Só que, no caso de Gerson Brenner, a despedida já vinha sendo ensaiada há anos no coração de quem acompanhou sua história, desde o brilho até a interrupção. Ele deixa o tipo de lembrança que não cabe só em arquivo de celebridade. Deixa também uma pergunta amarga sobre tudo o que o Brasil rouba de si mesmo quando deixa a violência decidir o destino de um artista.