Estava eu no cabeleireiro em Sintra, cabeça entregue ao brushing e mão esquerda com a manicura, que já me corrigiu duas vezes porque insisto em dizer manicure, quando o telemóvel tocou. Aqui ninguém fala celular e eu me rendi na primeira semana. Era uma amiga de São Paulo em chamada de vídeo, me mandando largar tudo para ver o vídeo da Gabriela. Largar eu não larguei, que a cutícula estava pela metade, mas assisti ali mesmo, com a outra mão de molho.

A Gabriela que o Brasil conheceu como Pugliesi, e que hoje assina Morais, resolveu falar depois de se declarar de direita e perder trabalho por isso. Ela perguntou por que alguém precisa esconder o que pensa politicamente para não perder contrato, admitiu que empresa tem todo o direito de contratar quem quiser, assim como o consumidor compra de quem bem entender, e apontou a contradição: a marca contrata porque a influenciadora vende e dá resultado, e está tudo lindo enquanto ninguém abre a boca. Para ela, o recado do mercado virou fingir que não acredita em nada para todo mundo continuar faturando.
Ela foi além e pegou a palavra da moda. Disse que parece que todo mundo defende a liberdade de expressão desde que a opinião seja igual à sua, que se fala o tempo todo em democracia e diversidade, e que a primeira reação a quem pensa diferente é excluir, boicotar, cancelar. Fez questão de separar as coisas: ter opinião política é uma coisa, desrespeitar ou ameaçar alguém é outra, e por isso ela responde. Depois puxou o assunto para o próprio quintal, a prosperidade, e perguntou de que adianta conquistar liberdade financeira sem liberdade para ser quem você é.
Quem acompanha a moça sabe que ela conhece esse filme por dentro. Em 2020, depois da festa em casa no meio da quarentena, HOPE, Rappi, Liv Up, Body For Sure e mais um punhado de marcas pularam fora, o Instagram perdeu mais de 150 mil seguidores em um dia e ela sumiu da rede por três meses, voltando com um vídeo de 12 minutos de desabafo. De lá para cá trocou de sobrenome, casou com Túlio Dek, se mudou com os filhos para Punta del Este e virou empresária de verdade, com a Gaab Wellness, que recuperou os R$ 300 mil do investimento já no primeiro mês, e o Life Reset. A diferença é que em 2020 ela pediu desculpas, e desta vez veio para defender.
Eu adoro a Gabi e concordo com ela no ponto central: marca nenhuma precisa assinar embaixo de tudo que a contratada pensa, do mesmo jeito que eu não peço o título de eleitor do dono da fábrica antes de comprar o esmalte. Agora, a frase mais sincera do vídeo inteiro veio no meio do discurso, quando ela parou para avisar que estava com câimbra no braço de tanto segurar o telefone. O braço aguentou menos que a paciência dela com o mundo. E convenhamos, quem tem marca própria já resolveu metade do problema, porque a patroa que pode cancelar a Gabriela é a própria Gabriela.

A manicura quis saber quem era a moça tão zangada no meu ecrã. Expliquei tudo e ela, com aquela calma portuguesa, soltou um “pois, está tudo muito chato” que valia o vídeo inteiro. Saí com as unhas prontas, o brushing impecável e a certeza de que, entre Sintra e Punta del Este, as mulheres mais tranquilas do mundo são as que já pararam de pedir licença para falar.