Eu não queria estar escrevendo isso sobre Gabriel Leone. Juro. Desde Velho Chico, eu trato esse homem como patrimônio afetivo tombado da minha vida sentimental, uma espécie de crush de luxo com certificado de sofrimento bonito. Quando ele apareceu em Bom Dia, Verônica, em Senna, em tudo, aliás, eu já estava emocionalmente comprometida. Pois agora me vejo obrigada a encarar a manchete que nenhuma mulher minimamente inclinada ao charme melancólico queria dar: na pré-estreia do próprio filme, Gabriel Leone virou foco de queixa de jornalista ignorado.
O fato é simples e feio. A pré-estreia de Barba Ensopada de Sangue, realizada no Cinépolis JK Iguatemi, em São Paulo, tinha como objetivo promover o longa e aproximar elenco e imprensa. Gabriel Leone estava lá, com entrevistas previamente combinadas com a assessoria, só que vários veículos não conseguiram realizar as conversas alinhadas. Segundo relatos, profissionais foram barrados em mais de uma tentativa por integrantes da equipe sem identificação clara, enquanto o ator falava com veículos e plataformas específicos. Numa noite criada para azeitar a divulgação, o que se espalhou foi desconforto.
A coisa piora porque esse tipo de situação tem uma liturgia própria, e todo mundo que cobre evento conhece. Quando a imprensa é chamada, confirmada por e-mail, posicionada e preparada, existe uma expectativa básica de acesso minimamente organizado. Se o artista atende alguns e outros ficam plantados, a conversa deixa de ser agenda apertada e vira critério nebuloso. E bastidor com critério nebuloso é a prima cafona do climão. Outros nomes da noite, como Aly Muritiba e Thainá Duarte, foram apontados como acessíveis e disponíveis, o que deixou a diferença ainda mais evidente.
E aí entra o meu conflito íntimo, porque eu sou dessas que olham para Gabriel Leone e enxergam uma tese inteira sobre beleza, talento e vocação para personagem atormentado. Eu tinha um sonho particularíssimo de seguir passando pano para esse homem até a velhice. Mas há um limite até para a devoção estética. Quando a imprensa relata bloqueio, seletividade e promessa não cumprida em evento de divulgação, o galã deixa de ser só o rosto bonito do filme e vira o centro de uma questão profissional bem chata. Nem meu romantismo de mesa de bar consegue fazer maquiagem nisso.
O mais curioso é que cinema nacional depende justamente desse circuito de boa vontade, entrevista, cobertura, corte para rede, nota de bastidor, repercussão que espalha a obra para além do tapete vermelho. Quando a relação com jornalistas desanda logo na largada, o filme começa a carregar um ruído que ninguém precisava. E isso é de uma burrice prática impressionante, porque publicidade boa é a que amplia desejo, não a que gera lista mental de ressentimento em repórter que foi barrado na terceira tentativa.
Até o momento citado no relato, não havia explicação pública da equipe do ator nem da assessoria do filme sobre os critérios adotados. E o silêncio, nesse tipo de situação, sempre parece mais arrogante do que talvez seja. Uma frase resolveria metade do desgaste. Sem ela, sobra a leitura que ninguém quer deixar no ar, mas todo mundo faz. Eu continuo achando Gabriel Leone um acontecimento. Só não precisava me obrigar a perder o apetite profissional e afetivo na mesma pauta.