Eu observo tudo com a sobrancelha arqueada e o rosário no bolso da Chanel . Antes de virar pivô de guerra política, Frei Gilson já era um fenômeno religioso e digital. Frade carmelita, cantor, fundador da comunidade Som do Monte, ele montou um império de fé apoiado em lives de oração, terços e missas transmitidas diariamente. Nada improvisado, nada ingênuo. Tudo pensado para prender atenção e fidelizar público.
Nas madrugadas, quando metade do país ainda briga com o despertador, ele já está ao vivo. As transmissões chegam fácil a dezenas de milhares de pessoas simultâneas. Em eventos especiais, os números escalam para a casa das centenas de milhares nas plataformas. Somando redes, o volume diário rivaliza com TV aberta e streamer famoso. A diferença é o cardápio. Em vez de gameplay ou fofoca, entra rosário, adoração e discurso conservador servido com calma e convicção.
Esse cruzamento de altar com algoritmo não passa despercebido por quem vive de voto. Onde tem audiência constante, tem poder circulando. A política fareja rápido. E farejou.

A organização do Frei nas redes é menos de pároco e mais de influencer profissional. Existe grade fixa de conteúdos, horários marcados, quadros recorrentes de oração de cura e libertação e uma linguagem de live totalmente adaptada ao comportamento de plataforma. Ele pede permanência até o final, incentiva compartilhamento em grupos de WhatsApp e Telegram e constrói uma comunidade que não depende de paróquia física. Depende de notificação no celular.
Quando Meta e Instagram bloqueiam contas ou transmissões ao vivo do religioso, sob alegações genéricas de violação de regras, a reação deixa de ser apenas espiritual. Nasce a narrativa de censura a um líder cristão popular. Cada punição de plataforma vira selo de relevância digital. O ciclo se fecha com precisão de manual. Polêmica gera engajamento, engajamento amplia alcance, alcance reforça o personagem.
O caldo político explode quando recortes de falas antigas e recentes de Frei Gilson, com forte teor anticomunista e posições conservadoras sobre mulher e costumes, começam a circular em perfis progressistas. Ele passa a ser apresentado como símbolo de fundamentalismo católico alinhado à extrema direita. A esquerda tenta enquadrar. Do outro lado, a blindagem entra em modo turbo.
Jair Bolsonaro posta foto, escreve mensagens em defesa do frei e transforma o religioso em bandeira da fé perseguida. O nome de Frei Gilson passa a circular de forma explícita na base bolsonarista. Deputados e influenciadores conservadores entram no jogo, gravam vídeos inflamados, acusam perseguição a cristãos e empurram o frade direto para o centro da timeline política. Em poucos dias, ele deixa de ser apenas um fenômeno católico de nicho e vira troféu simbólico da direita nas redes.

Analistas e veículos começam a registrar, com todas as letras, o incômodo da esquerda diante do efeito Frei Gilson para 2026. O raciocínio é simples e assustador para quem subestima religião. Um líder católico, com linguagem jovem, enorme poder de mobilização digital e trânsito com públicos evangélicos, funciona como cabo eleitoral perfeito, mesmo sem pedir voto nominalmente. A tentativa inicial de colá-lo ao bolsonarismo acaba reforçando a narrativa de cristãos perseguidos, velha conhecida da base conservadora.
Textos já falam em tiro no pé. Cada tentativa de cancelamento entrega ao bolsonarismo um mártir católico com audiência diária na casa das centenas de milhares. Na prática, cada ataque progressista vira combustível para aprofundar a associação entre Frei Gilson e uma identidade política de direita.
O que torna o caso realmente inédito é o lugar que ele ocupa na linha do tempo entre religião e política. Pastores evangélicos televisivos já foram atores centrais desde os anos 1990. Frei Gilson inaugura o modelo do padre influencer nativo de rede social, tratado como ativo em disputa eleitoral. Ele opera com cabeça de criador de conteúdo, métrica de streamer, estética de reality espiritual e discurso afinado com a cartilha da direita cristã.
Ao transformar oração em audiência e audiência em capital simbólico, Frei Gilson se consolida como o primeiro sacerdote católico brasileiro tratado explicitamente como peça da guerra eleitoral de 2026. Se em 2018 e 2022 a disputa passou sobretudo pelos púlpitos evangélicos, o caso dele sinaliza que a próxima batalha pode acontecer dentro de uma live às 4h da manhã. Um terço rezado ali passa a valer tanto quanto um comício lotado.