Eu estava no café da manhã da minha vizinha aqui no Cosme Velho, com uma torrada metida a besta numa mão e o celular na outra, quando a foto de Leandro e Leonardo na lavoura de tomates atravessou a mesa como notícia de testamento em família rica. A imagem, minha filha, não é só uma relíquia para fã suspirar no grupo de WhatsApp. É o tipo de registro que pega a gente pelo colarinho de seda e diz, olha de onde esse homem saiu.
Na foto, Leandro e Leonardo aparecem ainda longe do estouro nacional, ao lado do pai, Avelino Virgulino da Costa, em uma plantação de tomates em Goiás. A assessoria de Leonardo confirmou que o registro é verdadeiro, o que tira a imagem da prateleira da lenda de internet e coloca no álbum oficial da memória sertaneja. E aqui entre nós, pouca coisa é mais poderosa do que uma foto antiga que não precisa fazer pose para contar uma vida inteira.
O pulo do gato, que muita manchete preguiçosa vai deixar passar, é que aquela lavoura foi também o primeiro palco de Leandro. Antes de virar o nome que o Brasil aprendeu a amar, ele era Luiz José da Costa, menino de Goianápolis que trabalhava na roça, cantava com o irmão e carregava uma voz que depois viraria referência entre as segundas vozes do sertanejo. Eu olho para essa foto e não vejo só tomate, vejo destino ensaiando sem microfone.
Depois vieram os bares, os discos vendidos na unha, “Entre Tapas e Beijos”, “Pense em Mim” e aquela avalanche de sucesso que fez Leandro e Leonardo entrarem na casa do Brasil inteiro sem pedir licença. Leandro morreu em 1998, aos 36 anos, vítima de um câncer raro, e talvez por isso qualquer imagem dele antes da fama bata diferente. A gente sabe o fim da história, então o começo fica ainda mais doído.
No café, minha vizinha, que jura que não gosta de sertanejo mas sabe cantar “Pense em Mim” até debaixo d’água, ficou olhando para a foto como quem vê um parente distante. E eu entendi. Leandro não aparece ali como mito, aparece como trabalhador, filho, irmão, menino de roça, antes do brilho e antes da tragédia.
Essa foto está rendendo porque ela entrega uma coisa que artista nenhum consegue fabricar depois da fama, origem. E origem, meu amor, quando é verdadeira, não precisa de filtro, publipost nem legenda emocionada de assessoria. Ela senta à mesa, passa café, parte o coração e ainda pede açúcar.