Eu ouvi o microfone abrir e pensei: lá vem reprise. Filhos de Gandhy e Bell Marques juntos na mesma avenida nunca foi sinônimo de harmonia. É tipo juntar água e óleo e fingir surpresa quando separa.
Dessa vez, o estopim foi o velho assunto favorito do Carnaval organizado. Horário. Os Filhos de Gandhy cobraram publicamente a saída do Camaleão, lembraram acordo, falaram em respeito e pediram passagem. Bell respondeu do alto do trio com relógio na mão, precisão cirúrgica e aquele discurso que já virou assinatura. Bloco pontual, atraso mínimo, tudo dentro do combinado.
O detalhe que muita gente ignora é que isso não nasceu ontem. Gandhy e Bell não brigam por acaso. Eles operam Carnavais diferentes. O Gandhy carrega ritual, ancestralidade, tempo próprio, outro ritmo de ocupação da rua. Bell carrega a máquina do trio elétrico, cronograma fechado, engrenagem comercial que não pode emperrar.
Quando esses dois mundos se encontram sem mediação, o conflito quase sempre aparece. Já aconteceu antes. Já foi microfone aberto. Já foi cobrança pública. Já foi resposta atravessada. Salvador já viu esse filme em outros verões.
O erro não está só em quem cobra ou em quem rebate. Está em insistir numa programação que ignora o histórico. Colocar Gandhy e Bell disputando espaço é pedir tensão ao vivo. É jogar dois Carnavais incompatíveis na mesma faixa e esperar que o santo resolva.
Eu, Kátia Flávia, observo com aquele sorriso de quem conhece a avenida. Filhos de Gandhy não gostam de pressa. Bell não aceita ser acusado de atraso. No meio disso tudo, o público dança enquanto assiste ao espetáculo paralelo da folia. Aquele que não sai no trio, mas sempre rende manchete.