Meus fofoqueiros de elite, eu tive que sentar para processar porque esse aqui veio com roteiro de série criminal misturado com feed de publi, filtro bonito e pose de quem vende sucesso em 15 segundos. Felipe Heystee, nome conhecido nas redes por vídeos, humor e passagens pelo ecossistema de influenciadores, agora aparece em outro tipo de vitrine, bem menos glamourosa. A Justiça de São Paulo aceitou denúncia do Ministério Público, tornou o influenciador réu e decretou sua prisão preventiva no caso que ficou conhecido como “golpe do amor”. 
Segundo a acusação, Luís Felipe de Oliveira teria criado um perfil falso de mulher em redes sociais e aplicativos de mensagem para se aproximar de um homem e sustentar, por mais de dois anos, um relacionamento amoroso virtual. Eu pausei a esteira mental aqui, meu amor, porque o que os autos descrevem é uma novela tóxica montada com conversa diária, promessa de encontro e uma coleção de desculpas para que a tal namorada jamais aparecesse de carne, osso e CPF diante da vítima. 
A denúncia aponta que, nesse período, a vítima foi induzida a fazer transferências bancárias e pagamentos sucessivos, sempre amarrados a pedidos emocionais e justificativas variadas. O prejuízo citado pelo Ministério Público chega a R$ 207.604,55, valor que transformou um romance digital em caso de polícia e de tribunal. Também houve pedido de bloqueio de bens e valores até o limite do dano apontado na investigação. 
E aqui entra o capítulo que deixa tudo com cara de reality que saiu do controle. Enquanto a investigação corria, Felipe seguia com a embalagem pública do creator que venceu na internet. Reportagens publicadas nesta terça-feira, 10 de março de 2026, lembram que ele acumula cerca de 2,3 milhões de seguidores no TikTok e mais de 1,5 milhão no Instagram, além de ter ganhado projeção em torno do Rancho do Maia e do circuito de influenciadores ligados a Carlinhos Maia. Fama, engajamento, estética de luxo e discurso de empreendedorismo pessoal continuavam firmes na vitrine, enquanto a história descrita pelo processo corria em outro corredor, muito mais escuro. 
Eu olho para isso e vejo a cara mais indigesta da cultura da influência. Porque uma coisa é vender carisma, rotina, piada e lifestyle. Outra, segundo a acusação, é transformar atenção em armadilha afetiva e confiança em boleto emocional. É o funil do afeto com verniz de creator, meu bem. Primeiro a aproximação, depois a intimidade, depois a urgência financeira. Nem roteirista descansado de streaming teria montado uma engrenagem tão cínica sem tomar um puxão do departamento jurídico. Tudo isso, claro, é versão da investigação e do Ministério Público, ponto que precisa ficar cristalino. 
O caso ainda chama atenção pelo enquadramento formal. A 1ª Vara Criminal de Cotia recebeu a denúncia em 4 de março e o influenciador passou à condição de réu por estelionato praticado por meio de fraude eletrônica, de acordo com as reportagens. A prisão preventiva também foi decretada nessa mesma data. Isso muda bastante o peso público da história, porque tira o caso da prateleira do boato de internet e coloca tudo dentro do circuito oficial da Justiça criminal. 
No meio desse enredo, o que mais me pega é a lição amarga para esse universo em que muita gente compra personagem junto com a legenda motivacional. Tela bem editada não faz certificado de caráter. Seguidor não equivale a idoneidade. E a persona perfeita, às vezes, entrega menos um conto de superação e mais um camarim de fumaça. Se tem famoso surtando, tem Kátia anotando, e aqui eu anoto com salto fino e pé no chão: o caso é grave, está judicializado e, até decisão final, segue como acusação formal. Mas a vitrine do “venci na internet” já levou um tombo daqueles que nem filtro salva.