Aqui em Veneza, com o sol de fim de tarde batendo no canal e o meu coração já partido de base, recebi o vídeo do Felipe Castanhari e precisei parar o que estava fazendo. Tem notícia que não tem jeito de entregar com leveza, e essa é uma delas.
Castanhari relatou que, em dezembro do ano passado, encontrou uma aranha marrom grande na porta de casa e contratou uma empresa de dedetização para resolver a situação.
A empresa orientou que os animais ficassem fora dos cômodos por apenas três horas, com garantia de que o veneno já estaria seco e seria seguro. No dia seguinte, o gato Jack começou a apresentar agitação extrema, tremores nas orelhas e comportamento claramente anormal. Levado ao veterinário, internado, Jack sofreu uma parada cardíaca dois dias depois e morreu.
Os outros dois gatos, Michael e Annie, também foram afetados e ficaram semanas em recuperação, sem comer, sem beber água, exigindo cuidados intensivos. Castanhari descobriu depois que o produto usado, identificado como Bifing, tinha na embalagem instrução explícita de manter fora do alcance de animais domésticos, e que o prazo mínimo recomendado para afastamento era de 24 horas, com ideal de dois a três dias, especialmente para gatos, que se esfregam em tudo e se lambem constantemente.
No digital, a empresa não se pronunciou publicamente após a repercussão do vídeo. Castanhari afirmou que tentou responsabilizá-la e não obteve retorno, o que transformou a dor numa denúncia, porque ele entendeu que o silêncio deles era a única resposta que dariam.
A leitura que faço é a seguinte: Castanhari esperou três meses para falar, o que por si já diz muito sobre o peso do que viveu. Ele não fez o vídeo na emoção do luto imediato, fez depois de processar, e isso dá ao relato uma seriedade que nenhuma nota oficial de empresa vai conseguir desconstruir. A pergunta que fica no ar, e que ele mesmo faz, é exatamente a mais incômoda: por que informar três horas se o produto recomendava dias? A resposta que ele dá é simples e devastadora: porque se tivessem falado a verdade, ele não teria contratado.
Jack tinha um ano e meio, vida inteira pela frente, e morreu por uma informação que cabia num parágrafo de orientação. Isso tem nome, e o nome não é acidente.