Eu estava em Roma, tentando viver a minha elegância internacional em paz, quando me cai no colo o testemunho da ex-TikToker Nicole Louise, e confesso, quase derrubei a bolsa. A moça contou que, depois de aceitar Cristo, pegava o celular e os próprios dedos começavam a digitar sozinhos, como se tivessem sido contratados por uma firma paralela do além, sem carteira assinada e com muito desvio de função. Ela perguntava “quem é você?” e, segundo diz, a resposta vinha no toque, no xingamento e no teatro místico digitado na ponta da unha.
Nicole afirmou que os dedos escreviam “Exu, Exu” e também palavras de baixo calão, dirigidas a ela mesma, como se o aplicativo aberto fosse um misto de sessão espiritual com central de humilhação. Guardou as mensagens, diz usar tudo como testemunho e contou que chegou a pensar que estivesse ficando maluca, até concluir que aquilo era espiritual e que só Jesus Cristo a libertou. O relato é dela, está posto, mas a cena, convenhamos, já chega pronta com cara de corte de vídeo que a internet mastiga como se fosse pipoca ungida.
E aqui começa o festival brasileiro da falta de freio. Porque bastou a ex-TikToker abrir a boca para surgir o desfile de sempre, os crentes em estado de guerra santa, os debochados profissionais do feed, os especialistas em nada com opinião sobre tudo e a turma que transforma qualquer assunto religioso em campeonato de quem berra mais. O celular da moça virou quase uma mesa branca Bluetooth, e o algoritmo, safado como só ele, acendeu vela, tocou sino e abriu as portas do engajamento.
O que me pega não é nem a extravagância da história, porque extravagância, meu amor, eu respeito, ela sustenta metade da indústria do entretenimento. O que me pega é esse vício horroroso de jogar entidades e crenças no moedor da simplificação burra, como se religião de matriz africana pudesse virar figurino de susto de internet sem consequência nenhuma. Aí aparece uma falando de libertação, outra parte ouvindo como ataque, outra usando o caso para lacrar de quinta categoria, e pronto, o debate vira um condomínio de gente alterada gritando da varanda.
Minha leitura, em Roma e de salto emocional firme, é muito simples. A ex-TikToker Nicole Louise entregou um relato que junta fé, medo, confusão e um visual narrativo tão espalhafatoso que parece fanfic feita por um roteirista em jejum de bom senso. E a internet, essa senhora completamente desregulada, fez o que sempre faz, pegou um assunto delicado, botou cílio postiço, trilha de terror e distribuiu como entretenimento premium para uma plateia que ri, se ofende e compartilha antes mesmo de pensar.