No vídeo que explodiu no feed, Janaína Xavier surge em modo sincerona de boteco pós-rodada, mas com filtro de influenciadora. Em vez de olhar para a fala machista de Neymar, ela decide analisar o coração alheio e dispara que “está faltando um Chico na vida de uma mulherada aí”. Não satisfeita, emenda escalação completa: “um Chico, um Francisco, um João, um Pedro, um José, um Neymar, não interessa o nome”. Parece convocação da Seleção da Carência, com direito a camisa 10 reservada para qualquer homem disponível, desde que sirva para calar mulher que reclama.
A tese é simples e cruel: se a torcedora se incomodou com o “tá de Chico”, não é porque a expressão transforma menstruação em xingamento, é porque ela seria “menos feliz, mal-amada, recalcada, perturbada”. O pacote vem embrulhado em tom de piada, como se reduzir crítica a TPM fosse só uma brincadeira de bom humor. O subtexto é aquele velho clássico que já deveria estar aposentado com direito a placa de “uso indevido”: mulher irritada é falta de sexo, não de respeito. No lugar de discutir a fala do jogador milionário, o foco vai para a cama, o status de relacionamento e a suposta neurose de quem ousou discordar.
Quando puxa Érika Hilton para a conversa, o roteiro entra na fase “salada de preconceito com molho de confusão conceitual”. Janaína afirma que “as mesmas que reclamam da declaração do Neymar são as que defendem Érika Hilton e minimizam uma mulher ter útero, menstruação e TPM”. Em uma frase só, mistura transfobia velada, biologia de livro didático antigo e a ideia de que ser mulher se resume a sangrar todo mês. A implicação é venenosa: se alguém defende que identidade de gênero é mais complexa do que um exame de laboratório, automaticamente perde o direito de se ofender com piada sobre menstruação. É jogada retórica digna de cartão amarelo com promessa de expulsão.
Para coroar, ela carimba tudo como “revolta seletiva” e finaliza com “migas, vocês estão de Chico?”, como se tivesse encontrado o bordão do ano. A pergunta vem com risinho implícito, apostando que a plateia vai rir junto e esquecer que a conversa começou com um jogador usando menstruação para desqualificar árbitro em rede nacional. A estratégia é velha como arquibancada de cimento: transforma machismo em piada, transforma reação em histeria, transforma mulher em diagnóstico ambulante de TPM. Fica a cena:
Neymar erra na entrevista, a crítica aponta, e quem aparece para tomar cartão vermelho, no fim, são as torcedoras que ousaram abrir a boca.