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Kátia Flávia
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“Eu sou um improvável”: Eduardo Amarante transforma origem, fé e afeto em um dos nomes mais autorais da moda brasileira

Com faturamento de 10 milhões, presença internacional e uma estética guiada pela escuta e respeito ao feminino, o estilista constrói uma trajetória onde luxo é intenção não ponto de partida.

Kátia Flávia

29/12/2025 9h30

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Eduardo Amarante, estilista brasileiro, vive fase de expansão da marca que leva seu sobrenome. (Reprodução/Instagram)

“Eu sou um improvável.” A frase dita sem romantização resume a trajetória de Eduardo Amarante, um dos estilistas mais singulares da moda brasileira contemporânea. Aos 39 anos, ele vive um momento de expansão da marca que leva seu sobrenome, com faturamento de 10 milhões em uma única coleção, abertura de 90 novos clientes e presença em mais de 30 pontos de venda fora do Brasil. Mas, antes dos números, há uma história marcada por perda, responsabilidade precoce e uma criação que nasce da vida real.

Eduardo perdeu o pai muito cedo e, aos 13 anos, tornou-se sacoleiro para ajudar em casa. A moda não veio como sonho adolescente, mas como consequência de um caminho já conhecido por tantos brasileiros e forjado pela necessidade. “O que mais me orgulha é não ter negado a minha origem. Eu sou um improvável. A vida foi quem me capacitou. Perdi meu pai muito cedo. A responsabilidade veio antes do sonho. Nada foi fácil, mas tudo isso formou quem eu sou. Toda essa luta foi para honrar a minha história”, relembra.

Essa origem nunca foi apagada, pelo contrário, tornou-se a base de sua identidade criativa que hoje é reconhecida dentro e fora do país. Eduardo não separa o homem da marca. “Hoje eu me reconheci no meu próprio nome. O Eduardo e a Amarante são uma coisa só, uma marca de alma brasileira”, conta o estilista. Criado por três mulheres, ele relata que carrega para o seu ateliê a escuta, o afeto e o respeito profundo pelo feminino. “Minha criação vem da vida e de casa. Sou um homem criado por três mulheres que nunca soltaram as mãos, mesmo nos momentos mais difíceis. Meu trabalho nasce desse carinho, da escuta e do respeito profundo pelo feminino”, complementa.

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O estilista construiu uma identidade autoral baseada na escuta, no afeto e no respeito ao feminino. (Reprodução/Instagram)

O reconhecimento internacional não foi fruto de estratégias calculadas, mas pela verdade que o trabalho carrega. Quando viu suas peças vestirem mulheres como Sofía Vergara, Eduardo entendeu que o luxo não está na origem social, mas na intenção criativa. “Foi quando percebi que luxo não é origem, é intenção, sentimento e força de olhar”, diz. Essa percepção atravessa toda a sua obra, que se recusa a padronizar corpos ou seguir tendências descartáveis.

Ao longo da carreira, o estilista vestiu mulheres muito diferentes entre si, fazendo disso um manifesto: “Busco respeito. Cada mulher carrega uma história e um corpo. Minha roupa não é para padronizar ninguém, é para acolher.” A atemporalidade das peças é um valor central da marca Amarante, abrangendo peças com alma, que ao invés de morrer na próxima estação, permanecem.

Eduardo também foi um dos primeiros estilistas a entender a força das influenciadoras no Brasil, ainda no início da era dos blogs. Esse entendimento fez com que seu trabalho ganhasse notoriedade e saísse na frente em uma época em que a moda ainda se apoiava completamente na mídia tradicional. Sem planos de marketing sofisticados, apostou na intuição e construiu, ao lado de nomes como Silvia Braz e Thássia Naves, uma nova forma de diálogo entre moda e público. “Não foi marketing planejado, foi leitura de tempo, presença e sensibilidade”, afirma.

Apesar dos números expressivos e presença internacional, Eduardo descreve o momento atual como um dos mais desafiadores da sua vida. “Este foi o ano mais difícil da minha vida e, ao mesmo tempo, o de maior amadurecimento”, desabafa. Esse crescimento veio acompanhado de silêncio, responsabilidade e consciência, não de euforia. A expansão internacional da marca já havia seguido o mesmo fluxo orgânico, presente em Portugal, Saint-Tropez, África e América do Sul, mostrando uma identidade que ultrapassa fronteiras sem se perder: “As portas se abriram porque viram verdade na nossa história, não por estratégia forçada.”

A maturidade trouxe pausa e hoje Eduardo cria sem a necessidade de provar algo. Mas ao mesmo tempo, ele assume um papel mais amplo, além de estilista, ocupa uma posição de gestor de um projeto de vida construído ao lado da família, entendendo que fazer moda também é garantir entrega, estrutura e sustentabilidade.

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Reconhecido pela estética atemporal, Amarante defende uma moda com propósito, acolhimento e identidade brasileira. (Reprodução/Instagram)

Apesar do sucesso financeiro, o espaço mais sagrado do trabalho permanece intocado. “O dinheiro traz ferramentas, mas não traz as respostas. A criação continua sendo o lugar mais sensível e sagrado do meu trabalho”, analisa. A inspiração vem das experiências, especialmente das mais difíceis, e a intuição segue sendo o fio condutor de uma moda que revisita o passado para permanecer atual.

Quando fala sobre legado, Eduardo relata que busca continuar fiel à própria história, apostando na coragem, na verdade e na certeza de que a origem não deve ser um limite para ninguém. Para ele, a moda precisa ir além da imagem: “A moda precisa acolher. Precisa ser abrigo, não apenas uma imagem bonita.”

Já o futuro, não deve ser tratado com pressa e urgência, mas sim como uma sustentação. “Seguir construindo com consciência. Fortalecer a base ao lado da minha família e crescer sem perder a essência”, explica. E o que o dá forças para continuar sendo ele mesmo são as mesmas coisas que ele sempre fez questão de carregar consigo: a fé, a memória e o amor pela criação. “Foi muito difícil aos 13 anos e, aos 39, vivi uma dor que nem sei explicar. (…) Mas, em meio a tudo isso, é o amor pelo que eu faço que me faz levantar todos os dias”, finaliza o estilista, mostrando que o improvável não apenas chega longe, mas transforma o caminho.

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