Meninas, a reprise de ‘A Viagem’ está sendo um luxo né? sempre quis saber umas fofocas e curiosidades de bastidores da novela. E pra isso minha amiga Filomena Ferreto do Twitter conversou com a maravilhosa Solange e descobriu muitas coisas.
Em entrevista exclusiva concedida a Filomena Ferreto, para a coluna, Solange Castro Neves abriu o coração e revisitou momentos marcantes de sua trajetória. Escritora, professora e coautora de grandes sucessos da TV, ela falou sobre sua parceria com Ivani Ribeiro, os desafios de A Viagem (1994) — atualmente reprisada no Vale a Pena Ver de Novo — e revelou histórias inéditas dos bastidores.
- Como era o processo de trabalho com Ivani Ribeiro?
Comecei a trabalhar com a Ivani, em 1982, quando ela preparava a sinopse de “Final Feliz”, num momento em que ela estava com problemas de saúde por causa da sua diabete em grau avançado. Nessa época eu atuava em uma editora, escrevendo romances, quando conheci Paulo Ubiratan e foi através dele que tive contato com a nossa grande novelista. Assim, eu e Cleyde (Ivani) iniciamos uma jornada juntas por 14 anos.
Fui privilegiada em todos os sentidos. Com essa brilhante escritora eu conheci, na prática, toda a técnica de carpintaria: a complexidade de montar uma trama que tenha estrutura para segurar no ar milhões de telespectadores, durante seis meses ou mais.
Esse início foi fundamental, pois tive a oportunidade de, aos poucos, ir aprendendo passo a passo, com a Ivani, tudo sobre como criar uma sinopse coesa, com várias curvas dramáticas, diversos pontos de virada que surpreendem a todo instante, mesclando todos os tipos de emoções; despertando e levando ao público o que, exatamente, ele precisa e quer assistir naquele momento.

Assim, pude moldar minha carreira de escritora roteirista. Era um tempo em que nós, os colaboradores, não aparecíamos e a mídia não se interessava por aqueles que estavam na retaguarda. Por isso, muitos como eu, o Carlos Lombardi, Daniel Más, Luiz Carlos Fusco, Rose Calza, Ricardo Linhares, Leonor Bassères, bebemos da fonte dos principais autores, aprendendo, no dia a dia, a difícil tarefa de escrever 06 capítulos por semana. Isso nenhuma faculdade pode ensinar.
- Havia algum desafio específico em modernizar uma trama que já havia sido sucesso nos anos 70? Como vocês adaptaram a história para a década de 90?
Acredito que as histórias da Ivani são normalmente um sucesso por serem atemporais. Temas sempre atuais que mexem com a emoção do público fazendo com que reflitam sobre suas vidas e suas escolhas.
Um remake é muito mais difícil de se trabalhar do que criar uma história original. Isso por vários motivos: as pessoas que assistiram a trama antiga, têm dificuldade em aceitar a atual com atores diferentes, fazendo os mesmos personagens. Por outro lado, o tempo passou e temos de correr atrás para modernizar o enredo, trazendo os conflitos pessoais para a situação presente, sem descaracterizar o perfil dos personagens. Uma lição que aprendi com Ivani é que quando adaptamos uma história que o público já conhece, podemos mexer em tudo, mas precisamos manter as características próprias de cada um, ou seja, se quebrarmos a coluna vertebral, principalmente dos protagonistas, a trama desmorona, perdendo a sua coerência.
- A novela aborda temas complexos como vida após a morte, reencarnação e espiritualidade. Como vocês pesquisaram e se prepararam para tratar esses assuntos de forma tão sensível e realista?
Procuramos estudar a espiritualidade através de muitos livros do Chico Xavier, Allan Kardec, Herculano Pires e muitos outros. Tivemos também a orientação de vários estudiosos do assunto, tomando sempre o cuidado de não melindrar e de respeitar as pessoas que não acreditavam em vida após a morte.

- Qual a sua cena ou arco de personagem favorito na novela e por quê?
Os arcos dramáticos da Diná e do Alexandre, para mim, foram os mais fortes, pois conseguimos passar para o público a evolução gradativa de cada um deles. Iniciaram com características bem definidas que se transformaram no decorrer da novela.
- Você esperava o sucesso estrondoso de “A Viagem” na época? Como a equipe reagiu à grande repercussão?
Como era um tema espiritual, vida após a morte, temíamos pela repercussão que as mensagens causariam no público. Foi a primeira vez que a grande temática sobre suicídio – do Alexandre e sua obsessão em se vingar dos que julgava serem culpados de sua prisão – foi abordada e ficamos muito felizes quando constatamos que o nível de suicídio no Brasil, na época da novela, diminuiu considerevelmente. O sucesso da trama nos deu a certeza de que nossa missão foi cumprida, o que nos trouxe muita alegria e gratidão.
- O que você diria que foi o maior aprendizado que teve ao trabalhar tão de perto com Ivani Ribeiro?
Por um lado aprendi a técnica – que chamamos de carpintaria – para escrever uma novela: Storyline, Sinopse, Perfil Personagens, Arco Dramático, Estrutura, Cenas, Diálogos… Por outro, com a amiga Cleide (Ivani), tive grandes lições que conseguiria enumerar, mas dentre elas, uma que marcou muito: a responsabilidade que nós, escritores, temos com quem nos assiste, pois a TV invade os lares e a vida das pessoas. Uma frase que ela sempre me falava: – Filha, ninguém tem nada a ver com seus problemas. Enxugue as lágrimas, entre no seu escritório e tire, de dentro de você, o melhor. E nunca se esqueça, filha, essa profissão não é para os fracos.
- Há alguma história de bastidor inusitada ou engraçada que você possa compartilhar sobre a produção da novela?
Houve várias histórias engraçadas ou não, inusitadas, mas uma que não comentamos com ninguém. A Ivani tinha um guru, Alex André, que nos procurou quando estávamos escolhendo os atores para representar os personagens, revelando que sua filha era atriz e possuía um grande desejo de trabalhar na TV, e que ele gostaria de realizar seu sonho antes que ela voltasse para a casa do Pai. Justificou contando que ela havia nascido com um problema seríssimo no coração e não duraria muito tempo. Nós duas ficamos chocadas e tristes com a história dele e diante de tudo, resolvemos criar um personagem para a atriz Chris Pitsch, que abrilhantou a Vila da Cininha (Nair Bello).
A Viagem terminou, mas a amizade entre a atriz e nós, autoras, continuou. Era uma jovem linda por dentro e por fora. Em menos de um ano, depois do término da novela, recebemos a notícia de sua morte no Rio de Janeiro. Acredito que ela esteja do outro lado, fazendo teatro e encantando a todos.
- Houve alguma cena, personagem ou arco de história que vocês tiveram que adaptar ou mudar durante a exibição da novela, devido à reação do público ou a outros fatores?
Havia um personagem – O Adonai, o Mascarado (Breno Moroni) que eu tinha um fascínio enorme, porque sempre amei o mágico, a fantasia, o mistério. O público adorou seu perfil e no término, eu pensava em dar um final feliz para ele junto com o seu grande amor – Carmen (Suzy Rêgo). Quando comentei com Ivani sobre o assunto, ela me contou uma história e me fez refletir: durante anos o Mascarado era ovacionado por crianças, jovens e pessoas de todas as idades. Será que ele seria realmente feliz ao lado do seu amor de juventude, vivendo como uma pessoa comum, sem todo o mistério e o encantamento de sua profissão? Esse amor do passado conseguiria sobreviver no presente, sendo que houve um grande distanciamento dos dois por anos, onde ele omitiu a verdade usando as máscaras para esconder suas cicatrizes?
- Você poderia contar mais sobre o projeto de continuação de “A Viagem”? Por que a história não foi para frente?
A Viagem abordou a existência da vida após a morte enquanto O Retorno enfoca a reencarnação, ou seja, a volta dos protagonistas – em família – à Terra, para continuar a história de cada um. O reencontro dos três proporciona a certeza de que a vida é a continuação de uma longa história. Infelizmente no momento, a trama não está dentro do contexto da programação da emissora.
- Com a notícia de que a Globo está produzindo um filme baseado na história da novela, qual a sua expectativa sobre essa nova adaptação para o cinema?
Espero, de coração, que seja um grande sucesso. Eu, junto com Thalma Bertozzi e Vitor de Oliveira, adaptamos a história de A Viagem para um musical que está com a produtora Diosual, em parceria com a Globo. Estamos torcendo muito para que tudo dê certo.
- A senhora, que trabalhou em uma época de grande sucesso das novelas, como enxerga o cenário atual da teledramaturgia?
A verdade é que uma história envolvente, com uma trama bem estruturada, que atraia todo tipo de público, com um fio condutor que mexa com as emoções do telespectador, tendo por trás uma equipe unida que se empenhe em dar o melhor de si, tem a grande chance de ser um sucesso.