Amores, recebi a indicação de um livro que é babado. A perita em temas relacionados à saúde mental, a enfermeira Pós-Doutora em Saúde Pública Adriana Moro nos apresenta um romance repleto de camadas e dono de um olhar sensível sobre dois problemas cotidianos.
Ela retrata a solidão e as formas de abandono, e os dobramentos desses na saúde mental do indivíduo, na forma como ele se relaciona com o mundo. Foi pensando nessas demandas que a autora escreveu “Não me chame de Mãe”, seu romance de estreia lançado pela editora Urutau. Pensem numa leitura profunda, que não é apenas um passatempo!

O livro mergulha na dura realidade de uma mulher que se vê sozinha para enfrentar os desafios da maternidade durante a pandemia de Covid-19. “Não me chame de Mãe” nasce impactante e desconstrói a visão romantizada da maternidade ao narrar, de forma crua e sensível, a luta de uma jovem mãe sem renda, sem rede de apoio e com uma filha recém-diagnosticada no espectro autista.
Amores, em cinco minutos de leitura eu já estava em lágrimas e com uma vontade imensa de abraçar todas as mulheres que o mundo insiste em não enxergar.

“A ideia para escrever este livro veio com a prática diária dos meus mais de 23 anos trabalhando no Sistema Único de Saúde, atendendo mulheres “mães” de crianças e adolescentes atípicos, que por sua vez quase sempre enfrentam a dura demanda do cuidado integral sozinhas. Muitas não têm rede de apoio e uma grande parte é abandonada pelo companheiro após o diagnóstico. Nestas situações há um duplo abandono, abandono do outro e o abandono de si. Estas mulheres tem adoecido e pouco a sociedade tem olhado para isso.” – Adriana Moro, escritora e Pós-doutora em saúde pública.
Sabe aquele tipo de história que tira a gente da zona de conforto? Pois então.
O abandono do companheiro, a dificuldade em suprir as necessidades básicas e a pressão emocional de cuidar de uma criança neurodivergente em meio ao isolamento social são temas que atravessam a obra, tornando-a uma leitura urgente e necessária. Adriana Moro constrói um enredo que não só documenta a rotina de muitas mulheres invisibilizadas pela sociedade, mas também convida o leitor a refletir sobre o peso da solidão e do julgamento que recai sobre as mães solo.
Preparem o coração para este dado que a Adriana traz na obra: segundo estudos do Instituto Baresi, cerca de 78% a 80% dos pais abandonam os filhos com deficiência ou doenças raras antes dos cinco anos de idade. Mais do que um romance, temos na obra um choque de realidade, um convite à empatia e uma voz para tantas histórias que nunca são contadas.

“Não me chame de Mãe” não é uma crítica ao título de se tornar mãe e sim um grito social feminino, que não quer deixar de ser mulher a partir do momento que se torna mãe. É uma ficção para falarmos sobre saúde mental feminina, papeis de gênero e a retomada do amor e cuidados próprios após a maternidade e de que forma a sociadade pode auxiliar nesta (des/re)construção. Não é um livro para mulheres e sim sobre mulheres.
Enfim, se você busca uma leitura que seja um choque de realidade e, ao mesmo tempo, um abraço de compreensão, esse livro é obrigatório!