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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Esgoto estoura no Anhembi, alaga entrada do camarote da Prefeitura e transforma Carnaval em cena de pastelão

Teve água suspeita, cheiro forte, pallet improvisado e convidado equilibrando dignidade com fantasia.

Kátia Flávia

14/02/2026 10h30

Teve água suspeita, cheiro forte, pallet improvisado e convidado equilibrando dignidade com fantasia.

Eu vivi para ver o Carnaval entregar metáfora pronta, dessas que dispensam legenda. Na madrugada de sábado, um cano de esgoto resolveu surtar e estourou bem na entrada do camarote Espaço da Cidade, aquele da Prefeitura de São Paulo, no Sambódromo do Anhembi. Resultado. Água para todo lado, cheiro nada poético e convidados desfilando habilidade circense para entrar e sair do espaço.

A cena parecia ensaio de escola de samba do caos. Para acessar o camarote, o público precisou subir em pallets improvisados, tentando manter o sorriso, o copo firme e o look intacto. O odor era forte, desses que atravessam maquiagem à prova d’água e fazem o glitter pedir socorro. A CET, a Sabesp e equipes de limpeza cercaram a área enquanto funcionários avisavam, com a maior naturalidade do mundo, que o conserto completo ficaria pronto só no dia seguinte. Carnaval adora um suspense.

O estopim teria sido uma fossa entupida com lixo, segundo relatos de bastidor, o que provocou o rompimento do cano. Nada mais simbólico do que o luxo institucional enfrentando a realidade do encanamento em plena festa popular. Eu confesso que imaginei o roteiro sendo escrito sozinho, com direito a figurantes de capacete, caminhão de limpeza e camarote iluminado ao fundo.

O Espaço da Cidade funciona dentro de contratos de parceria avaliados em cerca de dois milhões de reais, sem repasse direto de dinheiro público. Em um deles, a Prefeitura recebe a infraestrutura do camarote em troca da cessão gratuita do espaço onde também funciona o Camarote Bar Brahma. Tudo muito bonito no papel, até o esgoto decidir participar da folia.

Eu batizei esse episódio de Samba do Cano Estourado. Um Carnaval onde o desfile não foi só na avenida, mas também na entrada do camarote, com convidados equilibrando o corpo, a paciência e o discurso. Porque no Brasil, até a festa institucional corre o risco de virar meme, e o esgoto, quando quer, rouba a cena sem pedir credencial.

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