Eu pausei a vida para processar esse enredo, meu povo. Estava aqui com cara de cidadã funcional, tentando fingir maturidade, e de repente me aparece esse roteiro de Brasil em horário nobre com Erika Hilton pedindo a suspensão do Programa do Ratinho por 30 dias. Aí eu larguei tudo. Porque uma coisa é a fala desastrosa de um apresentador ao vivo. Outra, bem mais cinematográfica, é a tentativa de empurrar um programa inteiro para fora do ar. E aqui mora o verdadeiro barraco, o filé, a confusão com salto alto e carimbo oficial.
Vamos organizar a bandeja, porque o elenco resolveu trabalhar. Ratinho fez declarações sobre Erika Hilton no SBT, questionou a identidade de gênero da deputada, falou em “mulher de verdade”, insistiu naquela ladainha biologizante com delicadeza de retroescavadeira e acendeu um incêndio político, jurídico e moral daqueles que fazem grupo de WhatsApp virar assembleia. A reação veio pesada. Erika acionou o MPF, pediu investigação, retratação pública, ação civil pública com indenização de R$ 10 milhões por danos morais coletivos e, no gesto mais explosivo de todos, solicitou ao Ministério das Comunicações a suspensão do programa por 30 dias.
E é aí que eu tive que me levantar do sofá. Porque até a revolta precisa de direção de arte. Criticar Ratinho é uma coisa. Cobrar responsabilização é outra, perfeitamente compreensível. Agora pedir que o programa saia do ar já muda de gênero. Sai do drama judicial e entra no thriller institucional, aquele em que todo mundo acha que está salvando a democracia enquanto testa até onde ela aguenta o salto quinze.
Eu sei, meu bem, que há uma indignação real e forte. E há motivo para isso. Ratinho não escorregou numa casca de banana semântica. Ele reafirmou o que disse depois, insistiu no argumento, tentou se justificar e acabou reforçando a própria lama. O SBT, sentindo o cheiro de pólvora no carpete, divulgou nota oficial repudiando discriminação, dizendo que a fala do apresentador não representa a emissora e prometendo análise interna. Em português bem traduzido do corporativês, foi aquele clássico: “a casa está tentando apagar o incêndio sem derrubar o lustre”.
Só que eu, Kátia Flávia, pecadora de camarote e comentarista de tragédias alheias com repertório de quem já viu muita gente importante morrer abraçada no próprio ego, olho para esse pedido de suspensão e penso: calma lá. Porque quando se pede a retirada de um programa do ar por causa de uma fala, ainda que odiosa, a conversa deixa de ser apenas sobre reparação. Ela passa a flertar com censura, com punição ampla, com um tipo de resposta que pode até render aplauso hoje, mas amanhã volta de blazer, com crachá e mira outro alvo.
Esse é o ponto que me faz derrubar a taça. Concessão pública tem regra. Emissora tem responsabilidade. Apresentador tem de responder pelo que diz. Tudo certo até aqui. Só que responsabilização individual, civil, criminal e administrativa é uma avenida. Tirar uma atração inteira do ar por 30 dias é outra avenida, com iluminação mais sombria e placas mais perigosas. Porque esse precedente, meu amor, é uma criatura que cresce rápido. Hoje vale contra um programa popular cujo apresentador falou barbaridade. Amanhã pode virar instrumento contra jornalismo incômodo, humor inconveniente, opinião antipática, crítica que desagrada governo, oposição, bancada, igreja, fandom e condomínio de luxo.
Eu mesma, que adoro um exagero bem vestido, sei reconhecer quando a cena começa a sair do texto. E aqui saiu um pouco. Ratinho merecia a reação pública? Merecia. Merecia repúdio da emissora? Sem dúvida. Merecia investigação? Claro. Merecia ser confrontado juridicamente pelo que disse? Aí é discussão séria e legítima. Agora, suspender o programa inteiro me parece aquele momento em que o elenco secundário toma o palco, puxa a cortina errada e quase desmonta o cenário junto.
Também há um detalhe político delicioso, no pior sentido. Erika Hilton não reagiu apenas como vítima direta da fala. Reagiu como agente política, com estratégia, com linguagem institucional, com escalada calculada. E isso não é insulto, é leitura de cena. Ela entendeu que o caso tinha potência simbólica. Transformou a ofensa em disputa de narrativa, em batalha por limites públicos, em teste sobre o que o Estado aceita ou pune quando o alvo é uma mulher trans e a ofensa vem em rede nacional. É uma jogada forte. Inteligente, até. Mas força política também precisa conviver com prudência democrática. Nem todo gesto eficaz é, automaticamente, o melhor gesto.
Ratinho, por sua vez, fez aquele papel clássico do homem que acende o fósforo em cima do tapete persa e depois jura que só estava aquecendo o ambiente. Disse que não ofendeu, que respeita, que considera Erika uma boa deputada, mas repetiu que não a vê como mulher. Essa fórmula do “eu respeito, porém” costuma ser a maquiagem borrada da agressão verbal. E o público percebe. Não adianta tentar embrulhar a grosseria em celofane opinativo. Continua sendo grosseria, com dano real e repercussão real.
E o SBT ficou no meio, coitado e nada coitado ao mesmo tempo, naquela posição ingrata de empresa que depende do seu elenco barulhento, mas precisa posar de civilizada na nota à imprensa. A emissora fez o que tinha de fazer no manual: repudiou, distanciou, lamentou e jogou a análise para dentro de casa. É o equivalente empresarial de mandar o parente inconveniente parar de falar alto no almoço de domingo enquanto torce para ninguém gravar.
Meu comitê de análise, vamos falar a verdade sem maquiagem de filtro. O caso escancara duas tensões enormes do nosso tempo. A primeira é o limite da liberdade de expressão quando ela encosta em discursos que negam identidades e ferem grupos historicamente vulneráveis. A segunda é o risco de transformar punição exemplar em atalho autoritário com verniz moral. As duas coisas coexistem. As duas incomodam. E as duas exigem cabeça fria, um item raríssimo neste país em que todo mundo debate como se estivesse no último episódio de reality.
Eu, que já briguei com o algoritmo, com ex-amiga, com editora e com espelho de camarim, confesso que entendo o impulso de querer arrancar a cortina do teatro inteiro quando a peça nos agride. Entendo mesmo. Só que democracia não se protege com improviso raivoso. Protege-se com regra, com devido processo, com responsabilização precisa e com algum horror saudável a soluções espetaculosas demais. Porque o espetáculo, quando entra no Direito pela porta da frente, costuma sair com a mobília nas costas.
Então sim, Ratinho merece ser duramente criticado. Sim, Erika tem razão em reagir com força. Sim, o SBT tinha obrigação de se posicionar. Agora, pedir que o programa saia do ar por 30 dias já me parece um passo teatral demais para um palco que deveria exigir menos catarse e mais critério. E eu digo isso com toda a dor de uma mulher que adora um escândalo bem iluminado. Mas há horas em que até eu, rainha do drama, preciso olhar para a cena e sussurrar para mim mesma, com a dignidade possível: amiga, abaixa esse refletor que o roteiro está quase censurando o próprio público.