Estava eu saindo de um jantar em Milão, aquele tipo de noite em que o vinho custa mais que meu primeiro salário e a conversa dura até a madrugada, quando meu telefone começou a vibrar sem parar. Era o Roda Viva. Era Erika Hilton. Era a frase que todo mundo já pensou, mas poucos tiveram coragem de colocar em horário nobre.
A deputada federal definiu ao vivo: “cafetão da fé” é o líder religioso que lucra em cima do medo e da esperança das pessoas para encher o próprio bolso. Ela foi além e citou como exemplo concreto uma igreja com fintech, banco próprio, estrutura financeira inscrita como missão divina. A fala não foi impulsiva. Foi cirúrgica.

O programa viralizou num segundo. Sete mil curtidas em um único post, 65 mil visualizações antes do café da manhã, e aí começou o movimento que a gente conhece: uns soltando fire emoji com fervor renovado, outros apagando comentários, e a ala que patrocina culto em troca de isenção fiscal ficou convenientemente offline até a manhã seguinte.

O que Erika fez foi separar o campo semântico com faca de chef. Ela não atacou a fé, atacou o modelo empresarial que usa a fé como produto. A citação do banco é inteligente porque é rastreável nos registros públicos, sem margem para o “foi tirado de contexto”. A referência ao Jesus que se sentaria com os marginalizados e pediria aos que apedrejam que olhassem os próprios pecados é uma disputa teológica que a esquerda brasileira raramente trava com essa desenvoltura. Dessa vez, a narrativa foi levada para o terreno do adversário.
Igreja com fintech, banco próprio e patrimônio inscrito como obra social: minha querida, o CNPJ já diz tudo que o sermão tenta esconder.