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Kátia Flávia
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Entre a lei e a vida real: Dra. Nathalia Stagliano transforma o Direito do Trabalho em informação acessível na internet

Advogada trabalhista usa as redes sociais para orientar trabalhadores sobre direitos e aproximar o conhecimento jurídico da população

Kátia Flávia

20/08/2026 17h42

Nathalia Stagliano atua na advocacia trabalhista e utiliza as redes sociais para aproximar os trabalhadores de seus direitos (Divulgação Pessoal).

Nathalia Stagliano atua na advocacia trabalhista e utiliza as redes sociais para aproximar os trabalhadores de seus direitos (Divulgação Pessoal).

Muito antes de transformar o Direito do Trabalho em conteúdo nas redes sociais, a advogada Nathalia Stagliano já conhecia de perto a realidade de quem vive do próprio trabalho. Desde jovem, ajudava os pais na padaria da família, experiência que a colocou em contato com diferentes trabalhadores e com as dificuldades presentes na rotina profissional.

Essa convivência despertou uma percepção que, anos depois, se tornaria parte de sua atuação. Para Nathalia, o trabalho representa não apenas uma fonte de renda, mas também dignidade, sustento familiar e construção de vida. Ao ingressar na advocacia e conhecer novas histórias, essa visão se fortaleceu e consolidou sua escolha pela defesa dos trabalhadores.

“Para mim, a advocacia trabalhista não se resume à discussão de verbas ou cálculos. Ela passa pela proteção da dignidade, da saúde, do tempo e da própria vida de quem trabalha”, afirma.

É essa visão que também orienta sua presença nas redes sociais. Em seus conteúdos, a advogada aborda temas como assédio moral, horas extras, FGTS, acúmulo de funções e rescisão indireta, assuntos que fazem parte da rotina de muitos trabalhadores, mas ainda geram dúvidas.

Entre os relatos que chegam até ela estão jornadas excessivas, horas extras não pagas, empregados desempenhando funções diferentes das previstas na contratação, ausência de depósitos do FGTS, cobranças humilhantes por metas, ameaças de demissão e situações de assédio moral.

Uma das situações que mais chama sua atenção, porém, é quando o trabalhador relata uma situação grave e pergunta se aquilo realmente está errado. Para a Dra. Nathalia, a frequência com que determinadas práticas acontecem pode fazer com que elas sejam confundidas com algo normal.

“O fato de algo acontecer todos os dias em muitas empresas não significa que seja correto ou permitido”, pontua.

Ainda segundo a advogada, a rescisão indireta é outro assunto que costuma gerar questionamentos. Muitos trabalhadores conhecem a possibilidade de pedir demissão, mas desconhecem que, em determinadas situações de falta grave cometida pelo empregador, a legislação permite buscar judicialmente o encerramento do contrato com direitos semelhantes aos de uma dispensa sem justa causa, desde que cumpridos os requisitos legais.

Foi justamente a distância entre o conhecimento jurídico e a realidade de quem está no ambiente de trabalho que levou Nathalia a utilizar a internet como extensão de sua atuação profissional. Enquanto os profissionais do Direito estão acostumados a artigos de lei, jurisprudência e termos técnicos, quem enfrenta um problema no trabalho costuma enxergá-lo de outra maneira: um chefe que humilha, uma jornada que ultrapassa o horário ou um direito que deixou de ser respeitado.

Nathalia percebeu que poderia construir uma ponte entre esses dois universos. “Meu objetivo sempre foi fazer essa ponte: pegar aquilo que é técnico e traduzir sem retirar a seriedade e a responsabilidade da informação”, explica.

Para ela, informar também é uma forma de aproximar as pessoas da Justiça. Conhecer os próprios direitos permite que o trabalhador faça perguntas, reúna documentos, busque orientação e tome decisões mais conscientes. “Democratizar a informação jurídica é, de certa forma, democratizar também o acesso aos próprios direitos.”

Nathalia destaca que o impacto desse trabalho aparece nas mensagens que recebe. Muitos trabalhadores relatam ter reconhecido a própria situação depois de assistir a um vídeo ou ler uma publicação. Alguns passaram a documentar acontecimentos, procuraram orientação ou simplesmente entenderam que aquilo que viviam não deveria ser considerado normal.

Há ainda situações em que a informação ajuda a pessoa a compreender experiências de assédio moral. Segundo Nathalia, depois de ouvir por muito tempo que é incompetente, fraco ou problemático, o trabalhador pode começar a questionar a própria percepção.

“Quando a informação jurídica consegue dar nome àquilo que a pessoa está vivendo, ela também pode devolver a essa pessoa uma referência de realidade”, afirma.

Com mais de 26 mil seguidores no Instagram, Nathalia reúne a defesa técnica dos trabalhadores na Justiça do Trabalho e a produção de conteúdo jurídico. Para ela, uma frente complementa a outra. A experiência nos processos aproxima seus conteúdos das situações concretas vividas pelos trabalhadores, enquanto a comunicação a desafia a transformar o conhecimento técnico em uma linguagem acessível.

“Hoje eu não consigo separar completamente a advogada da comunicadora, porque as duas partem do mesmo propósito: aproximar o trabalhador dos seus direitos e contribuir para relações de trabalho mais dignas e equilibradas”, destaca.

A proposta, segundo ela, não é criar uma oposição entre trabalhadores e empresas, mas defender relações profissionais mais saudáveis, baseadas em responsabilidade e respeito. “Meu propósito é contribuir para uma sociedade em que ninguém precise escolher entre preservar a própria dignidade e manter o seu emprego.”

Entre a advocacia e a comunicação, Nathalia encontrou uma maneira própria de exercer o Direito: levar informação para além dos tribunais e alcançar pessoas que talvez nunca chegassem a um escritório, mas que precisavam conhecer seus direitos.

“Se, por meio da advocacia ou da informação, eu conseguir fazer com que mais trabalhadores reconheçam o próprio valor, conheçam seus direitos e entendam que determinadas formas de abuso não precisam ser naturalizadas, acredito que estarei cumprindo uma parte importante da função social que escolhi exercer através do Direito”, finaliza.

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