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Kátia Flávia
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Entre 250 júris e romances policiais: quem é o advogado que transforma o crime brasileiro em literatura

Ariston Gonçalves das Silva Sal

13/02/2026 18h00

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Criminalista com mais de 20 anos de carreira, Daniel Tonetto revela como a vivência no júri inspira seus livros e amplia seu olhar sobre a condição humana.

Dr. Daniel Tonetto, advogado, professor, membro de academias de letras e escritor, detalha sua trajetória em entrevista exclusiva

Dr. Daniel Tonetto possui um currículo extenso, pois é graduado em direito e atua como advogado criminalista, além de ser sócio fundador do MMT Advogados e professor universitário. Especialista em Ciência Criminais e mestre em direito pela Universidade Salamanca, na Espanha, também é membro da Academia Santa-Mariense de Letras e da Academia de Letras e Artes de São Sepé (RS). Para além de sua jornada profissional e acadêmica, Dr. Daniel é escritor com seis livros publicados atualmente, e detalha em entrevista sua trajetória.

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Advogado, professor e escritor, ele conta como o contato com o sofrimento humano levou a literatura a se tornar um caminho de compreensão.

Sua jornada no direito começou ainda na infância. “O Direito sempre foi minha primeira e única opção. Acredito que isso se deva a uma lembrança de infância: meu avô costumava me levar para assistir às sessões do Tribunal do Júri em São Sepé, no interior do Rio Grande do Sul. Para uma criança, ver aqueles advogados defendendo seus clientes com coragem e convicção era algo quase hipnotizante. Ali, tudo estava em jogo: honra, liberdade, destino. Eu via aqueles profissionais enfrentando o peso do julgamento, defendendo pessoas quando ninguém mais as defendia. A coragem, a técnica e a humanidade exigidas naquele espaço me deram, muito cedo, um propósito. Assim, minha trajetória foi se construindo”.

O advogado conta que seu primeiro júri aconteceu quando tinha 21 anos, quando ainda estava na faculdade. “Aquele momento confirmou que eu havia escolhido o caminho certo. Desde então, venho me formando na prática e no estudo constante. O Direito me ensinou disciplina e, acima de tudo, responsabilidade. É uma profissão exigente e intensa, mas que exerço com orgulho”.

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Com seis livros publicados, Daniel Tonetto usa experiências profissionais para construir personagens e discutir temas sociais.

Apesar do amor pela profissão, Daniel conta que o Direito também cobrou um preço emocional alto, e por isso a escrita entrou em sua vida. “Lidar diariamente com o sofrimento humano é desgastante: todos os dias me deparo com dor, perdas, conflitos e silêncios que ficam depois dos processos. Não é possível atravessar tantas histórias sem levar um pouco delas conosco. Foi nesse cenário que a literatura surgiu como uma necessidade”.

“Desde criança, sempre gostei muito de ler, mas a escrita apareceu com mais força na fase adulta. No início, ela virou uma espécie de contrapeso: não para fugir da realidade, mas para transformá-la em algo que pudesse ser compreendido”, explica o escritor.

Como escritor, o Dr. Danilo se encontrou, mas ainda manteve o Direito como um dos pilares de sua escrita. “Lembro de uma passagem de Romancista como vocação, de Haruki Murakami, em que ele diz que cada escritor escreve por um motivo e que precisamos descobrir o que sentimos quando escrevemos. Essa ideia me acompanhou por muito tempo. Hoje eu sei que, para mim, escrever é me sentir vivo: é construir uma realidade alternativa em que a dor não é apenas dor, mas também narrativa, sentido e humanidade. Por isso, em todos os meus livros há, de algum modo, um julgamento ou um crime. Essa é a minha realidade, é o universo que eu conheço de perto e onde acumulei experiências para escrever com profundidade”.

“A vivência com o real amplia o repertório e aprofunda o olhar sobre a complexidade humana. Eu sempre me lembro de uma ideia que já ouvi algumas vezes: bons romancistas precisam ter mais vivência. Não por uma questão de idade em si, mas pela necessidade de acumular experiências profundas, observar pessoas em situações-limite e entender as camadas que existem por trás de cada escolha. Quanto mais experiências eu tenho, mais surgem ideias e possibilidades para construir enredos e personagens com densidade. Mesmo após mais de 20 anos de advocacia, ainda me deparo com situações e crimes que parecem inimagináveis. Esse contato com a realidade, com suas contradições e seus abismos, muitas vezes é o que dá verdade à ficção”, destaca Dr. Daniel.

Diante da fusão de um advogado e um escritor, perguntamos ao Dr. Daniel se a sua percepção sobre culpa e inocência mudou ao longo de sua vivência profissional e pessoal: “Sim, e muda o tempo todo. Na adolescência, a gente costuma enxergar o mundo em linhas mais retas: as opiniões parecem mais firmes, as certezas mais fáceis. Com o passar dos anos e, principalmente, com as causas que vamos assumindo, essa percepção se transforma. A prática mostra que a realidade raramente cabe em respostas simples e que culpa e inocência nem sempre se apresentam de forma tão evidente quanto se imagina de fora”.

“Tentei retratar isso em Crime em Família, minha primeira trilogia, ao mostrar como um crime reverbera muito além do fato em si e atravessa a vida de todos os envolvidos, inclusive das famílias. Quando há um crime, todos sofrem de algum modo. Depois de um conflito dessa natureza, ninguém sai igual. Cabe a mim, como advogado e como escritor, tentar dar forma a essas vivências com responsabilidade e humanidade”, reforça o escritor e advogado.

Em seu último lançamento, ‘A cor que nos separa’ que está disponível na Amazon, segue uma característica presente em todas as obras do autor: há sempre um fundo de realidade por trás da ficção. Dr. Daniel destaca que muitos personagens nasceram de pessoas reais, e alguns acontecimentos são inspirados em histórias que ouviu, viveu e acompanhou de perto.

“Neste livro, quis trabalhar questões humanas e sociais que me atravessam há muito tempo, especialmente os limites entre pertencimento e exclusão, as marcas que a origem impõe e as separações visíveis e invisíveis que surgem dentro das famílias e da sociedade. É um romance que atravessa gerações para mostrar como certas marcas não ficam no passado: elas se renovam, se disfarçam, mudam de linguagem, mas continuam operando no presente. Talvez o que mais inquieta seja justamente isso: os “vilões” não são monstros caricatos. São pessoas comuns. Gente que sorri, que cumprimenta, que se diz correta. Gente que usa máscaras sociais e, por baixo delas, reproduz violências já normalizadas. A cor que nos separa é, acima de tudo, um livro sobre vínculos familiares, afetivos e históricos, sobre o que nos separa, mas também sobre o que nos conecta. É um romance que mistura tensão, emoção e reflexão, e que convida o leitor a olhar para aquilo que nos divide, mas também para o que, apesar de tudo, ainda nos aproxima”, detalhou.

Para finalizar, Dr, Daniel destaca sua relação com a literatura e seu poder transformador. “A literatura tem um poder raro: ela devolve humanidade ao que o mundo costuma simplificar. Ela amplia a nossa capacidade de sentir e compreender, coloca o leitor na pele do outro, faz com que enxerguemos nuances onde antes havia certezas e transforma estatísticas em rostos, nomes e histórias. A literatura não substitui a realidade, mas ilumina aquilo que nela passa despercebido”, concluiu.

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