Eu estava, juro por Deus, tentando viver uma tarde civilizada, olhando celular, enrolando para fechar texto e fingindo autocontrole, quando me aparece Emílio Surita transformando o pós-Oscar em sessão pública de deboche contra a CNN Brasil. E aí eu tive que largar tudo, porque quando o jornalismo televisivo resolve virar briga de condomínio com verniz de prêmio internacional, eu presto atenção na hora. No comentário, ele imita o tom dramático da cobertura da rival, repete um “ai, estou muito triste” com aquele veneno de quem quer rir da tristeza alheia em rede nacional e ainda puxa a ficha do filme brasileiro que saiu sem estatueta. Meu amor, isso já não é só piada. Isso já é cutucão com salto fino.
A fala vem num momento em que o Oscar ainda rende ressaca emocional em muita gente, sobretudo depois da expectativa em torno de Wagner Moura e de “O Agente Secreto”. Pelo trecho que circula nas redes, Surita debocha do clima de apreensão criado antes do anúncio e transforma a frustração da cobertura da CNN em matéria-prima para o humor do programa. Ele ironiza o suposto medo da concorrência diante do resultado, repete bordões de chororô com voz caricata e ainda emenda a comparação com outros indicados, citando que produções estrangeiras perderam muito e ganharam pouco, enquanto o brasileiro ficou sem prêmio. Eu, que sou uma senhora dramática com diploma em psicanálise de camarim, reconheço o mecanismo na hora. Quando alguém ri demais da decepção do outro, é porque também quer marcar território.
E tem um detalhe delicioso, no pior e no melhor sentido. Essa alfinetada acontece num cenário em que a Jovem Pan vive seu próprio labirinto de imagem e audiência, com bastidor nervoso e atmosfera de novela empresarial de quinta. Então o comentário ganha uma camada extra, porque deixa de ser só zoeira de estúdio e vira demonstração de estilo editorial. A zoeira aparece como marca, como linguagem, como recado, como performance de um canal que decidiu fazer graça até na dor do outro ( sempre foi assim , se tratando de Pânico ) Eu rio, confesso, porque sou péssima e adoro um shade bem colocado, mas também fico olhando a cena com aquela cara de quem vê gente brigando de smoking na festa do cinema.
No fim da fala transcrita, o que sobra é menos uma análise de Oscar e mais uma celebração bem brasileira do prazer de ver o concorrente desconfortável. Surita não comenta só o resultado. Ele comenta a reação, a emoção, o tom, a tristeza, o vexame possível. E é aí que mora o veneno de verdade. Meus fofoqueiros, prêmio internacional passa, estatueta vai para outra casa, mas a vontade de rir do desespero da firma ao lado, essa sim, parece categoria fixa da televisão brasileira.