Em Curitiba, bar do melhor bartender do Brasil usa arquitetura para comandar a experiência
No Testarossa, bar de Ariel Todeschini em Curitiba, a arquitetura organiza o ritmo da noite, orienta o cliente e transforma o ato de beber em experiência consciente.
Kátia Flávia
26/01/2026 18h00
No Testarossa, bar de Ariel Todeschini em Curitiba, a arquitetura organiza o ritmo da noite, orienta o cliente e transforma o ato de beber em experiência consciente.
Eu, Kátia Flávia, apaixonada por Curitiba desde a primeira vez que congelei achando que era charme europeu, aviso logo. Tem bar que nasce para servir drink e tem bar que nasce para mandar na conversa. O Testarossa é do segundo tipo. Ele entra em cena, assume o controle e conduz a noite com segurança de protagonista de novela das nove.
O Testarossa é o novo endereço comandado por Ariel Todeschini, eleito o melhor bartender do Brasil no World Class 2025, ao lado do empresário João Pedro Pennacchi. Aqui, nada foi pensado para ser genérico. O espaço foi desenhado para guiar o cliente, sem confusão, sem excesso e sem aquele desconforto clássico de bar hypado onde ninguém sabe onde sentar.
Com capacidade para apenas 60 pessoas em 119 metros quadrados, o bar aposta em uma lógica já consagrada em casas autorais da Europa. Ambientes que contam histórias e conduzem comportamentos. O projeto divide o espaço em cinco zonas sensoriais que se revelam conforme o cliente avança. Balcão, sala de estar, memorabilia, mesa democrática e jardim de inverno. Cada área cumpre uma função emocional clara.
Foto: Emy Tsutsumi
Logo na entrada, o balcão se impõe como centro técnico e social da casa. Madeira maciça, mármore Napoleon Bordeaux e o trabalho do bartender totalmente visível. Ali, o cliente acompanha o preparo, entende o processo e se envolve com o que está sendo servido. O balcão vira palco e aula prática ao mesmo tempo.
Mais à frente, a sala de estar muda o ritmo. Sofás de couro, assentos mais baixos e uma atmosfera que convida à permanência. No fundo, o memorabilia assume papel quase editorial. Prêmios, objetos e referências ajudam a contar quem é o Testarossa, de onde ele vem e quais valores carrega.
Ao lado, a mesa democrática surge como eixo de convivência. Uma mesa longa, também marcada pelo mármore Napoleon Bordeaux, pensada para estimular encontros, conversas entre desconhecidos e celebrações coletivas. E fechando o percurso, o jardim de inverno aparece como área de respiro, com luz natural e sensação de pausa dentro da noite.
Foto: Emy Tsutsumi
O projeto arquitetônico é assinado pelas arquitetas Karina Kawano e Denise Maruishi, do escritório ARTD3, e trabalha uma identidade ítalo brasileira muito bem resolvida. Piso hidráulico antigo convive com mármore italiano, madeira maciça, couro e placas cimentícias que dialogam com a linguagem modernista brasileira. O teto vermelho, inspirado no design automotivo italiano, reforça a ideia de movimento contínuo pelo espaço.
Nada ali é rígido. As formas curvas ajudam a criar fluidez visual e fazem os ambientes conversarem entre si. O desenho evita dureza e conduz o olhar de forma natural, permitindo que o cliente se movimente sem esforço ou estranhamento.
O trabalho de iluminação acompanha essa lógica. Durante o entardecer, a luz é mais aberta e acolhedora. À noite, fica mais baixa, mais envolvente, convidando à experimentação dos coquetéis autorais e à permanência prolongada.
O Testarossa funciona na Rua Júlia da Costa, no Centro de Curitiba, de quinta a segunda-feira, das 19h30 à meia-noite. Para quem acha que bar é só balcão e bebida, fica o aviso de Kátia Flávia. Em Curitiba, beber também pode ser roteiro bem escrito, com começo, meio e vontade de voltar para o próximo capítulo.