Antes de ser conhecido como o Mestre das Milhas, Eloy da Fonseca Neto era oficial da Marinha do Brasil, na época tinha 25 anos e estava a bordo de um navio há um ano. Quando um problema de saúde o fez questionar suas decisões, após 10 anos de serviço optou por deixar a Marinha, decidiu cursar direito e fazer um intercâmbio para o Canadá, onde começa sua história com as milhas.

“Logo que eu fiz esse intercâmbio, eu fui na agência de viagem, a agência do Seu Ciro, nunca vou me esquecer, eu tinha acabado de sair da Marinha, estava com dinheiro da rescisão, então perguntei a ele: quanto que seria se eu, ao invés de ir de classe econômica, eu viajasse de classe executiva? O dólar era R$2,00, a passagem econômica era $1.300 dólares, já a executiva era 10 vezes mais cara”, relembrou.
Eloy ficou indignado com o valor e decidiu pesquisar sobre milhas, pois lembrou de uma tia da família, que viajava muito e usava milhas. “Isso em 2007, foi a partir daí que eu comecei a entender, a procurar sobre milhas, que eu comecei a estudar, porque eu vi que o programa de milhas era muito mais do que eu pensava. Eu imaginava que você ganha milhas e trocava por passagem ou upgrade, porém não é”, destacou.
“O programa de milhas tem benefícios, você não necessariamente precisava usar suas milhas, mas se você tivesse status na companhia aérea, por viajar com ela frequentemente, você tinha upgrade gratuito, entre outros benefícios, como, por exemplo, acesso à sala VIP, assento preferencial no avião, embarque primeiro, entre outros benefícios”, conta Eloy.

Segundo Eloy, naquela época ainda não tinha ninguém que falava sobre milhas, foi quando ele decidiu criar um blog chamado blog do Eloy, que falava sobre política, economia e viagem. “Em 2006 a 2010, o blog se destacou mais por viagens. Como eu falava muito de viagem, o pessoal vinha tirar dúvidas. E aí eu percebi que tinha um nicho a ser explorado, e comecei o Mestre das Milhas”.
A ideia do nome surgiu de uma homenagem à sobrinha de Eloy, Melissa Maia, pensando em colocar um nome que tivesse as iniciais dos nomes, ele escolheu mestre para remeter a um professor. “Nosso objetivo sempre foi ensinar, passar conhecimento, para que todo mundo se tornasse um mestre das milhas”.
No início, Eloy não pensou no blog como um negócio, porém as pessoas foram pedindo cada vez mais, a demanda foi aumentando. Até que o tráfego do site estava ganhando um bom alcance que oportunidade de anunciantes começaram a aparecer. “E foi assim que tudo começou, os anúncios do Google e diversas parcerias. Embora tenha se tornado um negócio, o início nunca foi um negócio, sempre foi uma paixão. Eu sempre gostei muito do assunto de milhas e pontos”.
Eloy acredita que sua paixão pelo tema é o que mantém a sua relevância como criador de conteúdo sobre milhas. “É algo muito interessante você poder viajar o mundo, olhar o Mapa Mundi e traçar estratégias para você tentar chegar naquele destino da melhor forma possível. Se você estiver viajando de classe executiva ou primeira classe, gastando o menos possível, ou pagando bem barato, numa passagem pagante, ou então utilizando milhas, isso é uma coisa que eu acho fantástico”.
Hoje, como criador de conteúdo sobre milhas e viagens, Eloy destaca que o principal desafio é explicar para pessoas que não conhecem nada sobre milhas. “Você fala sobre algo, você sabe do que você está falando, você tem domínio sobre aquele tema, mas muita gente não tem. Então às vezes você usa um vocabulário, você fala algo que a pessoa não tem sequer noção, então assim hoje a maior dificuldade é chegar e passar o conhecimento para pessoa. Para ficar mais fácil de entender, no nosso site tem muito tutorial, passo a passo, para ficar tudo explicadinho e não restar dúvidas”, destacou.
De acordo com o Mestre das Milhas, um dos pilares para acumular milhas de forma consistente é se tornando um hábito. “Você tem que ter o hábito, já meio que você tem que fazer um estudo antes, planejado de como é o seu perfil, sabendo o que você gasta, para saber qual vai ser o melhor cartão que você vai utilizar, qual vai ser o aplicativo que você vai utilizar, porque é possível você acumular milha também com o aplicativo, e qual é o tipo de transação que você vai sempre fazer através de terceiros”, destacou.
“Por exemplo, você quer comprar um fogão, então você tem a opção de pontuar no Livelo, pela Casas Bahia, ou pelo Extra, pela Loja Americanas, a partir daquele site. Então depende das transações, o grande segredo é você fazer um estudo de perfil, fazer um planejamento com base na sua necessidade”, explicou.
De acordo com Eloy, não é necessário alterar em nada o estilo de vida para ter milhas, basta adequar as melhores técnicas para você acumular milhas e pontos com gastos do dia a dia. “Existe uma técnica chamada stacking, traduzindo para o português seria empilhamento, que você empilha uma atrás da outra. Um cartão de crédito específico, por exemplo, que dá 4 pontos por dólar, e nesse mesmo restaurante você tem uma parceria que se você usar esse cartão nesse restaurante, você além de ganhar os pontos do cartão, você ganha os pontos da parceria do cartão e também tem a oferta do cartão de crédito, então você acumula tudo junto”, apontou.
Eloy explica também as mudanças que aconteceram ao longo do tempo com as milhas. “Naquela época até hoje, muitas coisas mudaram, mas uma coisa se manteve constante: as milhas nunca se valorizam, elas sempre se desvalorizam”.
Por conta desta desvalorização, o Mestre das Milhas explica que não é recomendado fazer poupança de milhas. “Às vezes um resgate que hoje custa 100 mil milhas, amanhã vai custar 1 milhão de milhas. Hoje, um resgate em classe executiva chega a custar quase 800 mil milhas”.
Na visão de Eloy, há uma diferença entre o programa de milhas do Estados Unidos e os do Brasil. “O mercado de milhas no Brasil hoje deixa muito a desejar. Antigamente, o programa de milhas, ele tinha o objetivo de fidelizar. Isso começou nos Estados Unidos, a, AmericAN Airlines foi a primeira companhia aérea que implementou o programa de AAdvantage. E aí, quando a Delta e a United viram aquilo, copiaram. Ah, vamos fazer também um programa de milhas nosso, para fidelizar. Só que com o passar do tempo, o pessoal começou a enxergar oportunidades. A companhia aérea vendia essas milhas para os bancos, para os bancos darem para os clientes que têm cartão de crédito. E isso se tornou um negócio muito lucrativo”.
“Então assim, os bancos compram bilhões e bilhões de milhas, porém quem controla o fluxo dessas milhas é a própria companhia aérea. Muitas pessoas recebem essas milhas dos bancos e as deixam expirar, então a companhia aérea ganha dinheiro de graça”, afirmou.
O Mestre das Milhas explica que hoje em dia não compensa comprar milhas, a não ser que tenha um desconto ou uma facilidade boa para emitir as passagens. “O mercado de milhas no Brasil ficou muito mercantilizado, ele ficou muito mercenário. E nos Estados Unidos, embora tenha se tornado um business, ele deixou o mercado operacional, ele não deixou o mercado abusivo”.
“Nos Estados Unidos se você quer comprar uma passagem de classe executiva para um destino legal, você consegue emitir com 50, 60, 70 mil milhas, desde que você tenha uma previsão. Daqui a um, dois, três meses, sempre tem uma disponibilidade, no Brasil não, uma passagem de classe executiva vai ser na faixa de 300, 400, 500 mil milhas”, explicou.
Para Eloy, o mercado brasileiro não é voltado para fidelidade, mas sim para recompensa. “Vou pegar como exemplo um passageiro que viaja 50 vezes no ano dentro do território nacional, seja com a Latam, com a Gol, com a Azul. Esse passageiro hoje, ele não vai ter quase benefício ou status nenhum, porque não é valorizada a fidelidade dele, é valorizado o quanto que ele gasta. Hoje, em todos os programas nacionais, você ganha milhas com base no gasto do passageiro, o que antes era com base nas milhas de voo, na frequência de voo. Hoje, você só se qualifica em função do gasto. Essa é a minha percepção, como uma pessoa que já está nesse meio já há praticamente 20 anos”.
“Então as companhias aéreas perdem uma excelente oportunidade de liderar no mercado, pois como elas controlam o fluxo das passagens poderiam até mesmo se tornar referência internacional caso optassem por privilegiar o cliente mais frequente, algo que não ocorre hoje em dia”, concluiu.