Gente, eu estava aqui em Milão na minha segunda xícara de café quando o celular começou a vibrar que nem despertador de segunda-feira. Minha fonte me mandou o vídeo do Eduardo Leite com três pontos de exclamação e eu soube na hora: isso aqui tinha drama de novela das nove com pretensão de Oscar.
O governador gaúcho apareceu nas redes com aquela voz de quem está emocionado mas ensaiou o emocionado pelo menos umas quatro vezes antes de gravar. Disse que a decisão do PSD o decepciona. Falou em “desejo real por equilíbrio”. Citou economistas, lideranças, cidadãos comuns, basicamente todo mundo menos o nome de quem o derrotou internamente. Caiado apareceu no discurso como “a decisão do partido”, sem sobrenome, sem cargo, como se fosse um fenômeno climático que simplesmente aconteceu.
O que me chamou atenção, e olha que eu assisto muita coisa, foi o encerramento. “Se não for agora, vai ser logo ali adiante.” Minha filha, isso não é despedida. Isso é reserva de mesa. Eduardo Leite embalou a derrota interna num papelzinho brilhante de conciliação e centro e entregou pra internet como se fosse presente de Natal antecipado. Nos grupos que eu acompanho, a leitura foi unânime: ele perdeu a rodada no PSD, mas não perdeu o apetite.
A retórica do centro tem mercado no Brasil, tem sim, mas manter esse endereço até o dia da eleição é exercício que poucos conseguem. Todo mundo quer morar no meio do ringue, mas na hora que a campanha esquenta, o ringue empurra todo mundo pro canto. Leite sabe disso, e o discurso de hoje parece calculado exatamente para quando esse empurrão vier: ele já deixou gravado que tentou, que foi elegante, que não dividiu.
O vídeo foi aplaudido por metade da internet e lido como peça de marketing político pela outra metade. As duas leituras estão certas ao mesmo tempo, e é exatamente isso que faz de Eduardo Leite um personagem interessante nesse reality eleitoral que o Brasil vai viver pelos próximos dois anos. Caiado ganhou a vaga no PSD. Leite ganhou o episódio nas redes. Com currículo discretamente aberto no rodapé.