Eu estava aqui em Milão, fazendo a unha entre uma notícia e outra, quando o novo prefeito do Rio resolveu estrear no cargo mexendo logo no vespeiro mais enfeitado do país. Eduardo Cavaliere apareceu defendendo um Grupo Especial com 15 escolas no Carnaval de 2027, citando Estácio de Sá, União da Ilha e Império Serrano para se juntarem a Mangueira e Portela, dele e do público, claro. Político no Rio não toma posse, ele entra em cena.
O fato é simples e já vem com purpurina administrativa. Cavaliere acatou uma ideia que Eduardo Paes já havia colocado na roda e transformou a conversa em gesto público, com fala gravada e recado direto. Só que, no minuto em que isso sai da nostalgia de mesa de botequim e vira declaração de prefeito, a Liesa passa a ser empurrada para uma equação que mistura regulamento, logística, desfile mais longo, orçamento e vaidade de barracão.
No digital, a reação vem pronta, porque Carnaval no Rio é religião com torcida organizada. Tem gente emocionada com a volta de escolas históricas ao centro da festa, tem gente vendo justiça poética, e tem quem já esteja fazendo conta de cronograma, dispersão, amanhecer na Sapucaí e transmissão espremida. O post vira festa para uns e dor de cabeça para outros, aquela combinação muito carioca de paixão genuína com planilha em combustão.
A minha leitura, tomando um uísque energético encarando o feed, é que Cavaliere quis chegar com assinatura própria sem rasgar o script de Eduardo Paes. Herdou a ideia, abraçou o simbolismo e ainda acenou para o coração do sambista, porque mexer com Estácio, Ilha e Império mexe com memória, bairro, arquibancada e orgulho ferido. Só que prefeito adora anunciar sonho bonito, e depois sobra para a engrenagem descobrir onde enfiar mais escola, mais tempo e mais disputa sem transformar a avenida num teste de resistência.