Eu ainda estava na varanda do Cosme Velho, acabando de fofocar com uma amiga do Jardim Botânico , quando meu telefone tocou com a novidade que o Rio inteiro esperava desde domingo: Ed Motta tinha ido ao O Globo dar a sua versão. Minha fonte foi direta, sem preâmbulo. “Cátia, ele falou. E virou o jogo.”
Em entrevista ao jornal O Globo, o músico Eduardo Motta admitiu que a confusão no restaurante Grado, no Jardim Botânico, começou por ele. Admitiu que estava bêbado, que se irritou, que perdeu o controle e jogou uma cadeira. Mas negou com todas as letras ter jogado a cadeira em direção a qualquer funcionário, negou ter agredido quem quer que seja, e afirmou que deixou o restaurante logo depois, antes de a situação escalar para o soco e a garrafada magnum que deixou um cliente sangrando. Segundo ele, o que aconteceu depois da sua saída foi entre o pessoal da sua mesa e os clientes da mesa vizinha.



O ponto que virou a discussão de cabeça para baixo veio na sequência. Ed Motta afirmou que, após sua saída, foram os clientes da outra mesa que partiram para ofensas homofóbicas e xenofóbicas contra seus amigos, chamando um deles de “viado” e mandando outro “voltar para a Arábia”. Na versão do chef Nello Garaventa e de sua mulher, Lara Atamian, donos do Grado, foram os integrantes da mesa de Ed Motta que xingaram funcionários com referências pejorativas à origem nordestina e insinuações sobre orientação sexual da equipe. As duas versões apontam o dedo para lados opostos, e nenhuma das duas cabe na mesma noite sem que alguém esteja inventando.
A Polícia Civil investiga, o restaurante anuncia suporte jurídico aos funcionários e responsabilização judicial, e Diogo Coutinho do Couto, empresário dono dos restaurantes Escama e Henriqueta que estava na mesa com Ed Motta naquela noite, segue em silêncio público. Tanto Ed Motta quanto o Grado confiam nas câmeras de segurança para provar suas versões. Câmera boa é assim: todo mundo acha que ela vai contar a sua história.
O Rio adora um barraco com reviravolta, e esse tem tudo: taxa de rolha, garrafa magnum, cliente sangrando, homofobia, xenofobia, dois lados furiosos e um vídeo que a Polícia Civil ainda não liberou. “Estava bêbado” raramente foi o começo de uma boa defesa pública, mas “a outra mesa começou” é um clássico brasileiro que nunca sai de moda.