Uma reportagem do “Balanço Geral”, da Record, repercutiu ao criticar os transtornos causados por obras associadas à futura sede da Globo em Brasília. A emissora mostrou o fechamento de parte de uma via e de um estacionamento público no Setor de Rádio e TV Sul, com reclamações de motoristas e pedestres.
Eu ainda estava na manicure em Sintra, com ela acertando os últimos detalhes do esmalte, quando vi a Record botar a lupa bem em cima da obra da concorrente. E, minha filha, quando rival de televisão aponta cone, tapume e vaga de estacionamento perdida, não é só trânsito: é novela das seis com orçamento de jornalismo.
O jornalista Rafael Cadengue criticou a falta de clareza sobre a responsabilidade pela interdição. Segundo ele, o Detran-DF informou que autorizou a intervenção, enquanto a execução do bloqueio ficou a cargo da empresa responsável pela construção. “Gente, tá um jogo de empurra nessa história”, disparou.

Cadengue também não economizou na ironia ao comentar o tamanho da obra. “Vamos construir o quê? É o novo Mané Garrincha que vai ter aqui na área central? O que é isso, gente? Meu Deus do céu!”, afirmou. Eu dei uma risadinha aqui, porque a frase veio com aquele tempero de quem estava falando de uma obra, mas sabia muito bem o nome que estava rondando a pauta.
De acordo com a reportagem, os tapumes e cones fecharam uma rua e parte de um estacionamento público. Cerca de 36 vagas teriam sido eliminadas, e a passagem de veículos ficou reduzida a 2,2 metros. É aquele tipo de obra que promete modernidade no futuro, mas entrega buzina e paciência testada no presente.

A construtora paga R$ 123 por dia pela autorização de uso do espaço público, segundo as informações exibidas pela Record. Eu acho muito pouco para o tanto de dor de cabeça que uma faixa estreita pode causar numa região já movimentada. Brasília tem espaço, mas aparentemente não tem espaço para todo mundo passar ao mesmo tempo.
A Globo não havia se manifestado sobre a reportagem até a publicação da notícia. Nas redes, porém, a conversa foi muito além dos transtornos urbanos: o público percebeu a deliciosa coincidência de uma emissora noticiar, ao vivo, os problemas da obra da outra.
Eu continuo aqui, esperando o esmalte secar e pensando que a televisão brasileira jamais perde uma chance de transformar concreto em entretenimento. Era para ser uma matéria sobre trânsito, mas virou uma alfinetada com CEP, tapume e um Mané Garrincha no meio do caminho.