Eu estava na varanda da casa em Sintra, tentando ler o balanço da Veste com uma meia de leite na mão, quando a equipe da Dudalina me ligou por vídeo e começou a passar as fotos do Outono 2027. Na terceira imagem, uma jaqueta de couro verde sentada na frente do Coliseu, eu larguei a xícara. Na quinta, já estava mandando mensagem para minha assistente no Rio separar tudo. Gente, eu não vejo a hora de pisar no Brasil e invadir uma loja.
A coleção nasceu em Roma, com o conceito “Dudalina em Roma, Roma e Dudalina, eternamente contemporâneas”, e as fotos foram feitas na escadaria da Trinità dei Monti e em frente ao Vittoriano. No masculino, a marca dividiu o armário do homem em cinco: Mediterrâneo, com linho, flamê, flanela e bermuda de sarja; Casual, com cores curingas; Performance, com tecido tecnológico; Sartorial, com alfaiataria, camisa especial, algodão fio 100 e tricô; e Contemporâneo, para quem quer sair do código tradicional. No feminino, a alfaiataria manda, com couro e tweed ao lado de tricô e camisaria, numa cartela de verde pistache, vermelho vinho, marrom escuro e azul marinho.

Agora a parte que a moda chama de lançamento e eu chamo de caixa registradora. Desde segunda, a coleção está sendo vendida aos lojistas e franqueados, que compram antes do consumidor final, e o próximo passo é chegar às lojas próprias e à loja online. É nessa venda para o canal que a marca descobre se acertou a mão, porque franqueado não compra peça por paixão, compra pelo que acha que vai girar na arara.
E a Dudalina chega com moral. A sessentona mais contemporânea do shopping completa 69 anos, faturou R$ 246,8 milhões brutos em 2025, crescimento de 5,2%, e credita o resultado a três coisas: expansão pelo modelo de franquias, avanço no varejo e coleção que vendeu. A dona da camisaria, a Veste S.A., reúne ainda Le Lis, John John, Bo.Bô e Individual, tem mais de 190 lojas, cerca de 3 mil multimarcas espalhadas pelo país, mais de 3,5 mil funcionários e fechou 2025 com faturamento líquido de R$ 1,24 bilhão.
Quem acompanha o mercado há tempo lembra que essa família já passou por um capítulo de Vale Tudo. A Veste é a antiga Restoque, que em 2020 viu o faturamento despencar na pandemia, pediu recuperação extrajudicial para renegociar uma dívida bilionária e, em 2022, converteu R$ 1,6 bilhão em ações antes de trocar de nome. Hoje a empresa está listada no Novo Mercado da B3, o nível mais exigente de governança, e cada coleção que acerta ajuda a contar a história da recuperação.
No bolso de quem compra, a promessa é armário que se desmonta e se remonta: os conjuntos de alfaiataria femininos podem ser usados juntos ou separados, e a camisaria, que é o DNA da marca, entra misturada com peça casual. Para quem olha a ação, o termômetro é outro, e vale acompanhar se o crescimento de 5,2% da Dudalina ganha ritmo com a rede de franquias nos próximos resultados trimestrais.

Eu vim para Portugal jurando que ia comprar só azulejo e pastel de nata. Bastou uma jaqueta de couro no Coliseu para eu descobrir que a minha lista de compras mais urgente ficou no Brasil, e ela tem cartela de cores definida.