Os implantes hormonais vêm sendo alvo de discussões nas redes sociais e consultórios médicos nos últimos anos. Entre promessas milagrosas, vídeos sensacionalistas e o uso popularizado do termo “chip da beleza”, o assunto passou a dividir opiniões e gerar dúvidas entre mulheres que buscam tratamento para sintomas da menopausa ou alternativas de reposição hormonal.
Para a ginecologista, obstetra e especialista em menopausa Dra. Ana Comin, uma das maiores dificuldades atualmente é justamente separar informação médica séria de discursos alarmistas ou superficiais. Segundo ela, o primeiro passo é entender que implante hormonal não tem relação com qualquer tecnologia eletrônica. “Os principais mitos seriam que o implante hormonal é um ‘chip de beleza’, não é um chip, não tem nada de eletrônico”, afirma.



A médica explica que o nome ganhou força após a apresentadora Hebe Camargo comentar publicamente sobre o tratamento que utilizava. “O termo ‘Chip da Beleza’ gera muita desinformação, porque as pessoas confundem o implante com algo eletrônico e não é. Chip diz respeito a algo eletrônico, que não existe no implante hormonal”, destaca.
O uso de implantes hormonais não é novidade na medicina. Os implantes surgiram nos Estados Unidos por volta de 1942 e foram desenvolvidos como mais uma via de administração hormonal, assim como comprimidos, géis, adesivos ou anéis vaginais. Desde então, o tratamento vem sendo considerado um refúgio para mulheres em sofrimento severo durante o climatério e a menopausa. “O objetivo deles era criar mais uma via e que fosse de liberação hormonal contínua e sem picos”, explica a médica.
Hoje, o tratamento é utilizado em diferentes países e pode ser indicado tanto para anticoncepção quanto para reposição hormonal. Ainda assim, a médica reforça que profissionais sérios e responsáveis nunca utilizam o implante como “porta de entrada”, ou seja, ele nunca é a primeira opção adotada nas clínicas. “Implantes nunca são a primeira via de administração de hormônio para nós médicos. A gente sempre começa com via oral, adesivos, não se tem o hábito de indicar o implante logo como primeira opção”, pontua.
Ela relata que a indicação do implante hormonal geralmente acontece quando outras alternativas não apresentam os resultados esperados. “Quando a paciente já fez o uso do gel, já fez uso da via oral, do creme, da via vaginal e nenhum deles dá resultado, é complexo e cansativo para a paciente ficar usando duas vias”, afirma.
A especialista ressalta que um dos benefícios dos implantes está justamente na liberação contínua do hormônio diretamente na corrente sanguínea, evitando oscilações hormonais importantes. Além disso, o método costuma oferecer praticidade para pacientes que enfrentam dificuldades com tratamentos diários.
“Então, sempre são tentadas outras formas antes e, somente quando elas não dão certo, indicamos tentar o implante que é o mais moderno e proporciona mais praticidade à paciente. É colocado uma vez a cada 6 ou 12 meses e, no caso dos anticoncepcionais, 3 anos”, relata.
Outro ponto levantado pela médica é a diferença entre a reposição hormonal feita com critério científico e o uso indiscriminado de hormônios para objetivos puramente estéticos ou de performance física. “A diferença é que os implantes para reposição hormonal são os implantes colocados por profissionais que sabem o que estão fazendo, que tem responsabilidade sobre a saúde”, pontua.
Segundo ela, o problema não está no implante em si, mas no uso inadequado de doses hormonais elevadas para fins estéticos.
O fim do mito: por que “Chip da Beleza” é um termo desinformativo
A origem do nome “Chip da Beleza” remete a uma entrevista antiga da apresentadora Hebe Camargo, que dizia se sentir “mais bela” ao repor seus hormônios por esta via. Contudo, o mercado apropriou-se do termo, inclusive contando com nomes de grandes influenciadores digitais, para vender promessas de emagrecimento e ganho muscular, o que a Dra. Ana Comin condena veementemente.
“Não é de hoje. O uso de hormônios não é permitido com fins estéticos, e, portanto, não é permitido uso de implante hormonal para fins estéticos. Médicos que usam reposição hormonal para fins estéticos estão tendo atitudes antiéticas, é errado e é algo condenado também pelo Conselho Federal de Medicina”, alerta.
Ela ressalta que o implante oferece energia e estabilidade, disposição, melhora do sono, melhora da libido, mas não faz milagres sozinho: “O implante hormonal é uma força extra quando o estradiol baixou e o FSH subiu. Ajuda na pele boa, no cabelo saudável, mas se você não faz os cuidados do dia a dia não vai adiantar nada.”
A repercussão em torno dos implantes aumentou ainda mais em 2024, quando o tema entrou em debate após denúncias divulgadas na internet. Na época, a Anvisa chegou a suspender, temporariamente, os implantes hormonais. “Em 2024 teve uma confusão, fizeram um site chamado Vigicom, aonde qualquer pessoa entrava, falava seus efeitos adversos, fazia críticas, dizia o que queria sem provar nada”, relembra. “Esse site não tinha nenhuma autenticação e quando nós (classe médica) começamos a solicitar provas e autenticação, o site caiu. A Anvisa viu aquilo e proibiu implantes hormonais por algumas semanas. E depois que solicitamos averiguação, viram que era incabível, as informações nem faziam sentido com os implantes. Teve gente falando de implante intramuscular, coisa que não existe.
Por causa dessa e outra série de informações falsas encontradas no site, a Anvisa averiguou e voltou atrás em sua decisão”, complementa.
Como escolher o profissional certo?
Para Dra. Ana Comin, a avalanche de informações desencontradas sobre o implante hormonal acaba criando uma cultura de medo até mesmo em pacientes que já realizam tratamento com acompanhamento médico adequado. “As pessoas não sabem em quem podem confiar e acabam perdidas, criando mais confusão na vida delas”, diz.
Ela também faz um alerta sobre os extremos que dominam parte do debate atual. De um lado, médicos excessivamente resistentes a qualquer novidade. Do outro, profissionais que banalizam hormônios sem critério clínico.
“Nós temos hoje em nosso país duas situações. Médicos conservadores, que são bons, mas só aceitam um tratamento se sair em guideline, e não aceitam os implantes; por outro lado também existem outros profissionais que saem fazendo implante sem a devida avaliação, faltando conhecimento e, muitas vezes, para a estética das pessoas. São os dois extremos completamente errados”, adverte a ginecologista.
No meio dessa conjuntura, existem também os médicos conservadores, mas com viés mais ousado, que não necessitam esperar anos por guidelines para colocar em prática protocolos que comprovadamente proporcionam saúde e bem-estar aos pacientes. Sem causar malefícios. “Fazemos estudos, participamos de estudos, trabalhamos dentro de universidades, escutamos inúmeras pacientes, discutimos, viajamos para conhecer serviços que usam implantes. Muitos pacientes reclamam desses conservadores que não entregam tratamento e muitos denunciam profissionais antiéticos que prescrevem hormônios de forma indiscriminada. É muito difícil o cenário de desinformação”, revela.
A médica defende que a reposição hormonal precisa ser individualizada, acompanhada de exames frequentes e baseada na história clínica de cada paciente. Entre os exames indispensáveis antes de iniciar qualquer tratamento hormonal estão mamografia, ultrassom das mamas e exames laboratoriais.
“A mulher precisa saber qual a melhor forma de fazer reposição hormonal para ela. Reposição hormonal não envolve você ver a paciente só uma vez por ano, você a vê constantemente, porque existem acertos que devem ser feitos”, explica.
A ginecologista recomenta que pacientes procurem médicos que estudaram, que tenham um nível de conservadorismo, mas que não fiquem paralisados por guidelines. Uma das formas de avaliar o profissional é entender se ele realiza todos os tipos de reposição hormonal; os que fazem somente implantes devem ser evitados a todo custo. Além disso, é preciso ficar atenta às redes sociais desses médicos, averiguar que as pacientes não sejam jovens anabolizadas, e sim pacientes menopausadas que tenham tido tratamentos bem sucedidos, com melhora na qualidade de vida.
Para as mulheres, o recado da Dra. Ana Comin é que a ciência oferece conforto e longevidade, desde que a busca seja pela saúde, e não por um “milagre” tecnológico. Dessa forma, a médica também reforça que os implantes hormonais não devem ser demonizados.
“Os implantes hormonais são mais uma forma de entregar a reposição hormonal, apenas mais uma via de administração. Como temos cirurgias abertas, abdominais, vaginais, videolaparoscópicas e robóticas, seguindo a mesma lógica, a gente tem também vias de administrar hormônio. O implante é apenas mais uma via”, demonstra.
A reposição hormonal por meio de implantes pode trazer excelentes resultados, desde que seja indicada e conduzida por um médico qualificado, com formação e experiência na área. Mais do que a via escolhida, o que realmente garante segurança e eficácia é a individualização do tratamento e o conhecimento técnico de quem o prescreve.
No fim, Dra. Ana Comin reforça que não se trata sobre qual método é “melhor”, mas sim sobre qual é o mais adequado para cada paciente.