Dor crônica, sangramentos intensos, dificuldade para engravidar e anos de peregrinação por consultórios até um diagnóstico definitivo. Para muitas mulheres, essa ainda é a realidade de doenças ginecológicas como endometriose, adenomiose e miomas. Mas o avanço da cirurgia ginecológica minimamente invasiva vem transformando esse cenário de forma decisiva.
Um dos grandes nomes à frente dessa revolução no Brasil é o ginecologista Dr. Thiers Soares, referência nacional na área, Doutor Honoris Causa pela Universidade Victor Babes, na Romênia, professor em hospitais públicos que formam novos cirurgiões dentro do SUS e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica (SOBRACIL) no Rio de Janeiro.
Para ele, o impacto dessas técnicas vai muito além da sala de cirurgia, mas abrange qualidade de vida, saúde emocional e preservação da fertilidade.
“A cirurgia ginecológica minimamente invasiva é uma abordagem feita através de pequenos cortes no abdômen e com uma câmera, e, com isso, a gente consegue não só identificar estruturas de maneira mais nítida, como também tratar essas doenças identificadas”, explica.

Ao contrário das cirurgias abertas tradicionais, que exigem grandes incisões no abdômen, a abordagem minimamente invasiva utiliza pequenas entradas para a introdução de câmeras e instrumentos cirúrgicos. Isso muda completamente a experiência da paciente. “As cirurgias minimamente invasivas se diferenciam das cirurgias abertas tradicionais, principalmente pelo tamanho do corte”, afirma o médico. “A cirurgia minimamente invasiva tem muito menos dor, menos sangramento, menos infecção, menos reoperação. A paciente pode voltar mais rápido às suas atividades laborais, suas atividades do dia a dia.”
Hoje, praticamente todas as condições ginecológicas podem ser tratadas dessa maneira, entre elas a endometriose, miomas, adenomiose, cistos de ovário, cirurgias na trompa, além de alguns tipos de cânceres ginecológicos.
Endometriose: quando a dor é ignorada e normalizada
Apesar de afetar milhões de mulheres, a endometriose ainda leva anos para ser diagnosticada. E para o Dr. Thiers, isso não acontece por acaso.
“O atraso no diagnóstico da endometriose acontece por diversos fatores. Acho que, infelizmente, também existe um desconhecimento profissional”, afirma. Mas o problema vai além da medicina. “A segunda parte, a gente pode atribuir à cultura de normalização da dor, onde a mulher cresce ouvindo que tem que aguentar a dor, que a dor é normal.”
Essa normalização tem consequências profundas. A boa notícia é que a cirurgia minimamente invasiva mudou radicalmente o tratamento da doença. “Uma das doenças que mais se beneficiou com a abordagem minimamente invasiva foi a endometriose, sem dúvida. Hoje conseguimos fazer tratamento da endometriose em vários locais, no intestino, bexiga, nervo ciático”, explica.
Miomas e adenomiose: o ganho está na recuperação
No caso dos miomas e da adenomiose, o grande diferencial não está apenas no tratamento em si, mas no pós-operatório. Ao comparar o procedimento com as cirurgias abertas, Dr. Thiers conta que nesse segundo caso a maior diferença está na dor, riscos de sangramento, de infecção e trombose.
“Quando você consegue fazer por via minimamente invasiva, o grande ganho, sem dúvida, é na recuperação dessas pacientes”, explica, já que os riscos caem drasticamente.
Esse impacto reflete na qualidade de vida das mulheres, com a possibilidade de recuperação muito mais rápida e segura.

Principalmente porque as consequências dessas doenças vão muito além da dor física. Afetam o trabalho, os relacionamentos, a vida familiar e a autoestima. “Muitas pacientes chegam ao consultório sem a sua vida do dia a dia normal. Não conseguem mais trabalhar, não conseguem dar atenção ao seu filho em casa, não conseguem ter relação íntima”, relata.
Por isso, o resultado do tratamento adequado costuma ser transformador. “Uma vez que você devolve essa qualidade de vida para a paciente, é como se ela renascesse”, conta Dr. Thiers.
Cirurgia como aliada da fertilidade
O medo de não conseguir engravidar é uma das principais angústias das pacientes. “O medo de não engravidar realmente é um fantasma que assombra a maioria das pacientes”, diz o especialista. O objetivo da cirurgia, segundo ele, é justamente o oposto do que muitas mulheres escutam antes de chegar a um especialista. “Nosso objetivo é justamente devolver essa fertilidade ou aumentar muito as chances dessa paciente engravidar, se esse é o sonho dela.”
E os resultados aparecem quando muitas pacientes finalmente conseguem engravidar. “Muitas voltam ao consultório para agradecer, mandam mensagens super felizes, porque venceram essa barreira da infertilidade”, relembra.
Para o Dr. Thiers, o recomendado é que a mulher que deseja engravidar não aceite a retirada do útero como opção de tratamentos para doenças como endometriose, mioma e adenomiose. Pelo menos não antes de consultar uma segunda ou terceira opinião. Porque é muito provável que essa paciente venha a realizar esse sonho com a cirurgia minimamente invasiva.
A videolaparoscopia foi o primeiro grande salto na área, “um divisor de águas”, como resume o especialista. Já a cirurgia robótica levou essa precisão a outro nível. “O robô não opera sozinho. Ele simplesmente é uma extensão do cirurgião”, esclarece.
Com visão tridimensional e instrumentos mais articulados que a mão humana, a robótica permite movimentos mais delicados e seguros. “A visão 3D dá a impressão como se você estivesse operando dentro da paciente. Isso torna realmente o robô uma plataforma muito precisa, muito delicada”, afirma.
Além do consultório, o impacto do Dr. Thiers se multiplica também na formação médica. Ele atua no Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ) e no Hospital Federal Cardoso Fontes, ambos no Rio de Janeiro. “Na UERJ a gente tem a possibilidade de ter o robô e a laparoscopia, o que é um diferencial muito grande no SUS”, destaca.
Para ele, ampliar o acesso passa por dois caminhos. “Precisamos de investimento direto em estrutura. E também investir na formação, formar mais profissionais para que eles possam passar esse conhecimento adiante”, diz.
Em um cenário onde muitas queixas são minimizadas como “emocionais” ou “exageradas”, a orientação do especialista rompe com a passividade. O foco deve ser o empoderamento por meio da informação e do acolhimento técnico. Quando uma mulher aceita o desconforto como parte de sua rotina, ela não está apenas suportando um sintoma, está atrasando diagnósticos e negligenciando sua própria qualidade de vida. A recomendação do Dr. Thiers para as mulheres que se sentem ignoradas pelo sistema de saúde ou pelo entorno social é “não normalize o que te machuca”