Apesar de já acumular 40 anos de carreira, durante três décadas, o cirurgião Eduardo Teixeira construiu uma trajetória singular na medicina brasileira ao decidir enfrentar a controvérsia com pesquisa. Professor titular de Cirurgia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e do Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica (CBCP), ele dedicou boa parte da sua vida acadêmica a investigar o polimetilmetacrilato, também conhecido com PMMA, e comprovar, com dados científicos, aquilo que muitos repetiam sem conhecer.
Estudos recentes comandados pelo cirurgião apontam que o PMMA não desencadeia reação inflamatória aguda. Mas ainda segundo Teixeira, esses achados não são uma surpresa. “O PMMA é seguro, desde 1967. Complicações são raras, e acidentais”, afirma.
Mesmo com uma presença significa de literatura acadêmica provando a eficácia do produto, para chegar até esse entendimento, foi preciso atravessar um terreno marcado por desinformação, confusões diagnósticas e interesses que pouco tinham a ver com ciência.
Para entender o caminho percorrido por Teixeira, é preciso voltar aos anos 1980, quando o médico alemão Gottfried Lemperle passou a estudar o uso injetável do PMMA como preenchedor. No Brasil, a ideia foi introduzida pelo Dr. Mateus Sommer Neto, ainda em fase quase artesanal.

Foi nesse momento que Dr Eduardo Teixeira e seu pai, médico e químico de formação, entraram na história. Em meados de 1995, os primeiros implantes com PMMA no país foram realizados na clínica da família, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Anos depois, já no doutorado, veio a pergunta que guiaria sua pesquisa: seria o PMMA biocompatível também no tecido muscular, e não apenas na gordura subcutânea.?
Esse projeto foi aceito, a tese foi defendida em 2006 na UFRJ e os resultados ampliaram as possibilidades terapêuticas do biomaterial. Os estudos mostraram que o PMMA mantém no músculo o mesmo comportamento observado no subcutâneo: formação de cápsula fibrosa rica em colágeno, reação crônica e controlada, ausência de inflamação aguda e necrose.
Para o médico, não houve surpresa. A comprovação abriu um novo leque de indicações. Além da aplicação estética, surgiram possibilidades reparadoras importantes, como reforço de parede abdominal em casos de atonia, correção de deformidades musculares, sequelas traumáticas e síndromes congênitas.
Na visão do cirurgião, reconstrução e estética não são campos opostos. “Não vejo esta fronteira de forma clara. Estética e reparadora andam juntas hoje. É o que diz a definição de saúde, ninguém está saudável se estiver insatisfeito com a aparência. Tratar a estética como mera vaidade é um conceito que não existe mais”, explica.

Diferente do que o senso comum propaga, o PMMA de qualidade (aprovado pela Anvisa e FDA) é inerte. Ele não causa alergias por não ser proteína. O que ocorre é um granuloma de corpo estranho controlado, onde o organismo envolve as microesferas com colágeno, criando um volume estável e definitivo. Segundo o professor, em 60 dias o processo está consolidado e a “cicatriz” interna está pronta.
A epidemia silenciosa que distorceu a verdade
Um dos maiores desafios relatados pelo Dr. Eduardo é a confusão diagnóstica que demoniza o produto. Ele alerta para uma “epidemia silenciosa” de complicações causadas por silicone industrial e produtos clandestinos, muitas vezes vendidos falsamente como PMMA em academias e salões.
Para Teixeira, parta da má reputação do PMMA nasce da confusão entre o produto médico regularizado e o silicone industrial usado clandestinamente. “São muitos casos, uma verdadeira epidemia silenciosa, muitos com consequências dramáticas (óbitos, necroses extensas, sepses)”, relata.
Procedimentos ilegais, feitos fora do ambiente médico, passaram a ser rotulados como complicações de PMMA em atendimentos de emergência. E exames mal interpretados reforçaram esse equívoco. Com isso, a narrativa negativa sobre o PMMA ganhou força na mídia e no imaginário popular. Para Teixeira, quando uma complicação por produto clandestino é tratada apenas como “erro estético”, a sociedade perde. “Injetar silicone industrial não é uma complicação em um ato médico. É um crime, lesão corporal grave”, alerta.
A única resposta possível para vencer o que o médico chama de “desinformação voluntária” é a ciência, por meio de trabalhos sérios, critérios técnicos e acompanhamento rigoroso.
Não é só volume, é dignidade e autoestima
A visão do Dr. Eduardo sobre a cirurgia plástica é humanística, por isso ele reitera que não deve existir divisão entre “reparação” e “estética”, já que ambas visam o bem-estar do paciente.
O uso do PMMA em contextos reparadores tem sido fundamental em casos de:
• Lipodistrofia: Correção de atrofias faciais e corporais em pacientes com HIV.
• Síndromes Congênitas: Como a Síndrome de Poland (ausência do músculo peitoral).
• Sequelas de Traumas: Preenchimento de deformidades e retrações cicatriciais.
O impacto vai além do espelho e isso já é amplamente documentado e comprovado na área. O Dr. Eduardo cita um estudo realizado por sua filha, durante a graduação, que apontou a melhora nos parâmetros clínicos e sociais de pacientes tratados. “Mostrou que os pacientes tratados tinham melhora estética, social, de percepção da própria aparência e, inclusive, de parâmetros clínicos”, relembra.
Em alguns casos, o ganho funcional pode ser discreto, mas o efeito emocional é profundo. A reconstrução corporal reorganiza a vida social, profissional e afetiva.
Técnica, responsabilidade e segurança em primeiro lugar
Embora defenda o material, o cirurgião enfatiza que o PMMA exige treinamento e bom senso. Por ser definitivo, o planejamento deve ser feito em etapas, como uma “massa de modelar”, avaliando a evolução com calma. Não há espaço para improviso. “Sendo um produto definitivo, o produto exige treinamento, conhecimento em bom senso”, aponta.
Complicações podem ocorrer, assim como em qualquer procedimento médico, mas são estatisticamente raras quando o produto é verdadeiro e aplicado conforme técnica adequada. “Podem haver complicações com o uso do PMMA de verdade, mesmo com todos os cuidados. Mas são raros. A maioria é por produto ruim, ou por má técnica”, explica.
Para Dr. Eduardo Teixeira, o debate não é sobre vaidade. É sobre saúde integral. Ao completar três décadas de trabalho dedicados ao PMMA, o legado que o cirurgião e pesquisador busca deixar é o da clareza. Em um mercado muitas vezes movido pelo pânico ou pelo lucro rápido, ele aposta na sobriedade acadêmica para garantir que pacientes continuem tendo acesso a tratamentos que devolvem, acima de tudo, a dignidade corporal.
“Não sei se tenho esta pretensão, mas acredito ter ajudado a preservar um produto que poderá ajudar muitos pacientes. É o que me motiva”, finaliza