O cenário da cirurgia plástica mudou drasticamente desde que o Dr. Almir Nácul criou a Bioplastia, há mais de três décadas. Ano passado, essa trajetória de inovação foi celebrada no BIOSS 2025, o maior congresso de harmonização facial e corporal do mundo, realizado em São Paulo. O evento não apenas reconheceu Nácul como o criador da técnica, mas validou uma tecnologia brasileira que hoje é exportada para os quatro cantos do globo.
A Bioplastia, apelidada de “plástica interativa” ou “plástica sem cortes”, rompe com o modelo tradicional do bisturi por ser minimamente invasiva. O procedimento utiliza biomateriais (como o PMMA ou Ácido Hialurônico) aplicados em camadas profundas, abaixo do músculo ou junto ao osso, para esculpir ângulos e volumes. Tudo com o paciente acordado e sob anestesia local. O objetivo do procedimento é redefinir contornos faciais e corporais e pode ser considerado como uma tecnologia já consolidada. “É uma tecnologia que veio para ficar, uma vez que ela torna fáceis problemas de difícil solução”, afirma o médico.
A origem da técnica remonta ao uso de colágeno bovino injetável para tratar pequenas rugas e marcas de expressão. “Os resultados eram bons, porém temporários. Além disso, por ser um material de origem animal, havia risco de reações adversas. Essa experiência me mostrou que eu estava certo, diante de um caminho promissor ao corrigir volumes, tratar rugas sem cirurgia. Mas era necessário evoluir em segurança e durabilidade”, relembra Nácul.

Foi nesse contexto que o médico começou a estudar o PMMA (polimetilmetacrilato) como biomaterial de longa duração, há mais de 30 anos, após conhecer o biomaterial por meio de um colega cirurgião plástico do Rio de Janeiro, Dr. José Ricardo Simões. “Percebi que ali poderia existir uma alternativa mais estável e previsível para correções estruturais, tanto estéticas quanto reparadoras”, conta.
O início não foi simples e o cirurgião enfrentou forte resistência, especialmente por parte de setores da cirurgia plástica tradicional, mas isso não o desanimou: “(Resistência) é natural quando surge uma técnica nova. Com o tempo, porém, os resultados apresentados em congressos científicos, da própria Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, mostrando harmonização sem cortes e sem agressão cirúrgica, começaram a abrir espaço para o diálogo técnico.”
A evolução da técnica
A consolidação do método passou por ajustes importantes, um processo que foi lento e progressivo. No início, eram utilizadas agulhas nos procedimentos, que aumentavam o risco de equimoses e hematomas por perfuração vascular. O grande avanço foi a introdução das microcânulas de ponta romba, que desviam vasos e estruturas nobres, aumentando significativamente a segurança do procedimento. Dr. Almir Nácul conta que a técnica evoluiu graças a muito estudo, prática e aperfeiçoamento constante.
Para o cirurgião plástico, a Bioplastia introduziu um novo conceito de harmonização estrutural minimamente invasiva. “Hoje vemos uma busca crescente por procedimentos de longa duração. Isso revela algo humano, as pessoas desejam estabilidade, querem se reconhecer no espelho sem depender de constantes retoques. Mas o objetivo nunca deve ser exagero. O foco é naturalidade, equilíbrio e respeito à individualidade”, explica.
Ele também destaca a importância do trabalho acadêmico realizado nas universidades brasileiras, PUC e ULBRA, onde formou equipes multidisciplinares. “Chegamos às formulações não proteicas, que dispensam teste prévio de alergia e oferecem maior estabilidade. Esse foi um passo importante na consolidação do método”, conta.

A Bioplastia ampliou o campo da cirurgia plástica para além de centros cirúrgicos tradicionais, permitindo que o paciente tenha acesso a correções estruturais em ambiente ambulatorial, sem a necessidade de internação hospitalar, além de diminuir custos e tempo de recuperação. Mas essa ruptura e praticidade também trouxe uma responsabilidade maior sobre os profissionais.
Por isso, Dr. Almir Nácul também alerta que “procedimento minimamente invasivo não significa procedimento simples.”
Segurança e defesa da regulamentação
O PMMA tem sido alvo da mídia sensacionalista e até movimentos que pedem pela sua proibição. Em meio a debates sobre o uso do produto, Nácul aponta que o maior risco não é o material, e sim profissionais que o manuseiam sem a capacitação necessária. “O maior desafio não é o material em si, mas a variação técnica e a qualificação profissional”, reforça. Para ele, segurança depende de protocolo: médico com profundo conhecimento anatômico, treinamento específico, produto com registro na Anvisa, uso de microcânulas e indicação criteriosa.
O Polimetilmetacrilato está registrado na Anvisa há mais de 20 anos, possui grau 4 de risco (o mais alto) justamente por ser permanente e exigir técnica rigorosa, além de ser tema de mais de 500 publicações científicas em diferentes aplicações médicas e odontológicas. Segundo esses mesmos periódicos, o índice de reações adversas em pacientes sem contraindicações é de cerca de 1%.
Isso pode indicar que as “polêmicas” na mídia acerca do PMMA não estão ligadas ao produto em si, mas a médicos e profissionais que utilizam esse produto sem a capacitação necessária. A falta de controle sobre a venda do polimetilmetacrilato pode resultar em adulterações, diluições indevidas para “render” o material e aplicações em planos anatômicos incorretos. É importante ressaltar que o PMMA não foi feito pra ser diluído, pois já vem pronto para o uso em seringa estéril.
Em meio a um cenário de possível banalização do produto, Dr. Almir Nácul é um dos médicos que defende a regulamentação rigorosa para garantir o uso seguro do PMMA. “Sou absolutamente favorável à regulamentação rigorosa. Todo biomaterial deve ser registrado nos órgãos competentes de cada país. Crescimento sem controle gera risco. Crescimento com regras gera maturidade”, declara.
O lado humano
A busca por procedimentos definitivos reflete um desejo humano por estabilidade e identidade. No entanto, Nácul reforça que a ética médica também exige impor limites e saber que dizer “não” é um ato médico. “Muitas vezes eu disse ‘não’, quando avaliava o caso e percebia que não havia indicação no procedimento desejado pelo paciente”, afirma.
O cirurgião reforça que a Bioplastia não é um procedimento banal e, por envolver biomaterial permanente, deve ser realizada por médico parcimonioso, capacitado e experiente, com indicação precisa. “Decisão consciente é sempre mais importante que decisão impulsiva”, aconselha.
O lado reparador da técnica também ganha destaque. O médico recorda com emoção o caso de uma jovem com atrofia por paralisia infantil que recuperou a simetria das pernas através da Bioplastia. “Após o tratamento, ao se olhar no espelho e ver as pernas simétricas, ela chorou de alegria. Eu, minha equipe e a enfermagem também nos emocionamos. Esse momento resume tudo, a tecnologia é importante, mas o impacto humano é o que realmente dá sentido à medicina. Nesse momento, eu senti que a felicidade que damos para o paciente é mais gratificante que o dinheiro”, relata.
Entre controvérsias e avanços, Nácul mantém a mesma defesa da técnica, ciência e regras claras. Para ele, a Bioplastia não é um “milagre” de prateleira, mas uma intervenção que deve ser levada a sério. E o futuro do PMMA no Brasil não deve passar pela proibição, mas pela responsabilidade e regulamentação. “Segurança é protocolo, não improviso”, finaliza o cirurgião plástico.