Criado e apresentado por Dotan Mayo, o programa completa 22 anos em 2026 consolidado como uma das principais referências do artesanato no Brasil. Mais do que ensinar técnicas, a atração construiu ao longo do tempo algo mais difícil de medir: uma relação direta com a vida cotidiana de milhares de brasileiros.
No ar de forma ininterrupta há mais de duas décadas, o programa nasceu com uma proposta simples. Ensinar. Mas, como o próprio Dotan reconhece, o que começou como hobby e renda extra acabou se transformando em algo maior.
“Hoje vemos como esse segmento se profissionalizou e ganhou força. Conhecemos inúmeras artesãs que começaram focando na renda extra e hoje sustentam a família toda”, afirma.

Entre a terapia e o sustento
O artesanato, que movimenta cerca de R$ 55 bilhões por ano no Brasil e envolve aproximadamente 9 milhões de profissionais, encontrou no programa um espaço de visibilidade e valorização. Mas o impacto vai além dos números.
Ao longo dos anos, Dotan percebeu que o conteúdo exibido diariamente tinha um efeito que escapava da lógica do entretenimento.
“O artesanato acaba sendo uma ferramenta para as pessoas terem qualidade de vida. Muitas se desconectam de problemas sérios e até de momentos de depressão”, diz.
Essa dimensão transformadora ajuda a explicar a fidelidade do público. Parte dele, inclusive, envelheceu acompanhando o programa. Uma audiência que não apenas assiste, mas incorpora o conteúdo à rotina.
Não é raro, segundo o apresentador, que telespectadores organizem o dia em torno do horário da atração. Um compromisso silencioso, quase ritualístico.

Da renda extra ao negócio próprio
Se por um lado o programa acolhe, por outro também impulsiona. Histórias de empreendedorismo se multiplicam a partir das técnicas ensinadas na tela.
Muitos começam com pequenas produções, ainda tímidas, e aos poucos transformam o artesanato em fonte principal de renda. Em alguns casos, o negócio cresce e envolve toda a família.
“Às vezes começa como renda extra e vira o sustento da casa. Tem gente que passa a vender, depois chama o marido para ajudar, e aquilo se transforma em um negócio”, conta Dotan.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o de Fabiano Oliveira, que começou como telespectador, participou de um concurso do programa e hoje é referência no setor, com centenas de milhares de seguidores nas redes e atuação como professor.

Tradição que se renova
Apesar da base fiel, o público do artesanato também mudou. Nos últimos anos, jovens passaram a ocupar espaço nesse universo, especialmente em técnicas como o crochê.
Para Dotan, esse movimento revela uma busca por equilíbrio em meio ao excesso digital.
“O jovem está querendo colocar a mão na massa. Existe um prazer em dizer ‘fui eu que fiz’”, observa.
Ao mesmo tempo, o programa acompanha e influencia tendências. A produção monitora o que está em alta dentro e fora do país, sugere pautas e ajuda a direcionar conteúdos que depois se espalham pelo mercado.
Com isso, o Ateliê na TV se posiciona não apenas como vitrine, mas como agente ativo na dinâmica do setor.

Bastidores de uma longevidade rara
Manter um programa independente por mais de duas décadas em rede nacional não é tarefa simples. O desafio passa por financiamento, parcerias e adaptação constante.
Segundo Dotan, a permanência no ar só foi possível graças a uma combinação de fatores: credibilidade, respeito ao público e relação sólida com patrocinadores.
“O maior desafio é manter o programa. Isso envolve muito investimento e parceiros que acreditam no projeto”, afirma.
A linguagem também evoluiu. Influenciado pelo ritmo do mundo digital, o conteúdo ficou mais ágil, direto e dinâmico, sem perder a essência do passo a passo.

O apresentador que divide o protagonismo
Um dos diferenciais do programa está justamente na forma como Dotan se posiciona diante das câmeras. Ao contrário do que costuma ocorrer na televisão, ele desloca o foco para os professores.
“Eu sou a ponte. Quem merece destaque é o professor, que passa noites preparando o conteúdo”, diz.
Essa escolha editorial teve impacto direto no crescimento de muitos profissionais, que passaram a ganhar visibilidade e oportunidades após participarem da atração.
Um espaço de respiro
Em um cenário dominado por notícias negativas, o Ateliê na TV construiu um caminho próprio. Um espaço de leveza.
“Hoje a gente liga a televisão e vê muita coisa pesada. O artesanato faz o contrário. Traz alegria, esperança”, resume Dotan.
Talvez seja essa a chave de tudo. Em meio à pressa, ao ruído e à sobrecarga de informação, o programa oferece algo simples, quase raro: tempo.
Tempo para aprender, criar e, por alguns minutos, respirar.