Eu ainda estava em casa, naquela negociação humilhante entre levantar da cama e fingir que a academia não existe, quando me veio novamente à cabeça a cena que assisti ontem à noite em Quem Ama Cuida. E vou confessar: dormi, acordei e continuo pensando em Dora com aquela raquete na mão.
Porque, meus amores, Mariana Ximenes não levantou apenas uma raquete contra Ademir. Ela levantou 23 anos de memória noveleira na cara de Dan Stulbach.

Quem atravessou Mulheres Apaixonadas, em 2003, entendeu a provocação imediatamente. Dan marcou a televisão como Marcos, o homem que aterrorizava Raquel, personagem de Helena Ranaldi, e tinha justamente uma raquete associada às cenas de violência contra ela. Agora o jogo virou: em Quem Ama Cuida, é o personagem dele quem vê uma mulher levantar uma raquete e mandar que ele pare.
Eu, que nem tinha colocado o pé para fora da cama, pensei: novela brasileira, quando quer conversar com a própria história, sabe ser deliciosamente debochada.
Mas vamos ao barraco de ontem porque a raquete foi apenas a cereja de uma sequência que já estava pegando fogo.
Ademir flagrou Dora, vivida por Mariana Ximenes, e André, personagem de Henrique Barreira, na cama. A partir daí, perdeu completamente o controle. André não abaixou a cabeça e jogou na cara do tio que ama Dora de verdade, ao contrário dele, que estaria mais interessado no status de ter aquela mulher ao seu lado.
“Cala a boca!”, exigiu Ademir.
André não calou. Disse que respeitava e amava Dora. Resultado: Ademir partiu para cima do sobrinho e chegou a segurá lo pelo pescoço, enquanto Dora tentava impedir que a discussão virasse violência.
E aqui está um detalhe importante desse escândalo todo: Dora deixou claro que não estava traindo Ademir. Segundo ela, os dois já estavam separados, ela havia pedido o divórcio havia algum tempo e era justamente ele quem se recusava a assinar os papéis.
André ainda provocou mais. Disse que só não dava um soco no tio porque ainda o amava, mas afirmou que Ademir jamais havia tratado Dora como ela merecia.
O homem ferveu.
Ademir quis saber havia quanto tempo aquela “traição” acontecia pelas costas dele. Dora voltou a repetir que não existia traição alguma. Depois, ele atacou André dizendo que o havia trazido da Europa e o chamou de mau caráter.
E recebeu uma resposta que aumentou ainda mais a temperatura da sala.
André rebateu dizendo que mau caráter, para ele, era criminoso que cometia assédio. Ademir respondeu acusando o sobrinho de ter assediado sua mulher. André retrucou dizendo que aquilo não era assédio.
“Isso é amor.”
Pronto.
Ademir avançou novamente e segurou André pelo pescoço. Dora tentou fazê lo parar, mas percebeu que conversa já não estava resolvendo coisa alguma.
Foi quando ela desapareceu por alguns segundos e voltou.
Com a raquete.
Minha filha, eu quase levantei da cama sem precisar do despertador.
“Solta ele, eu tô mandando soltar!”, disparou Dora, erguendo a raquete para o ex marido.
Ademir ainda caiu numa risada cínica diante da ameaça.
“Vai rindo, vai…”, respondeu ela.
E é justamente nesse momento que Quem Ama Cuida conversa diretamente com uma das lembranças mais fortes da carreira de Dan Stulbach nas novelas. Em Mulheres Apaixonadas, Marcos usava uma raquete nas agressões contra Raquel. Mais de duas décadas depois, o ator aparece diante de uma mulher segurando exatamente o objeto que se tornou símbolo de um dos personagens mais detestáveis de sua trajetória na televisão.
Só que Dora não ficou apenas na ameaça.
Ademir ainda tentou recorrer ao discurso sentimental: disse que nunca havia deixado de amá la.
E Dora entregou a frase que, para mim, fechou a conta.
“Isso não é amor. É seu ego inflado gostando de desfilar por aí com uma mulher troféu pela sociedade.”
E completou:
“Quem ama não trai, não engana, não mente.”
Aí, meus queridos, nem precisava mais da raquete.
Dora finalmente colocou em palavras o que estava por trás daquela explosão: na visão dela, Ademir não estava desesperado simplesmente porque perdeu um grande amor. Estava desesperado porque perdeu o controle sobre uma mulher que já havia decidido sair daquele casamento.
E eu comecei minha quinta feira assim: ainda em casa, me preparando para encarar a academia e pensando que a Globo conseguiu transformar uma simples raquete numa piscadela para quem guarda novela na memória.
Agora sim eu posso levantar.
Porque Dora já fez o exercício pesado da manhã por todos nós.