Meu povo, eu estava toda plena, fingindo que ia dormir cedo, quando dou de cara com Dora Figueiredo virando autora e entregando um recado bem direto. Autocuidado com carinha de ritual e discurso com peso político. Eu precisei pausar a vida e olhar duas vezes, porque isso mexe com a cabeça de quem acha que tomar um café e respirar fundo é só um capricho.
O livro chama “Café com a Deusa” e chega com 365 mensagens, naquele formato que conversa com o dia da pessoa. Você abre numa página qualquer e pronto, ganhou um empurrão. A proposta é simples e esperta, leitura contínua ou não linear, sem culpa e sem manual de instrução. Dora organiza os textos em ciclos e deixa a leitora começar quando quiser, do jeito que der.
E aí vem o pulo do gato. Ela coloca o autocuidado como um gesto político, amarrando autoconhecimento, acolhimento e força feminina com uma visão de mundo que passa por desigualdade de gênero e sobrevivência emocional. Eu adoro quando alguém pega um tema que a internet transformou em slogan e devolve com contexto, sem pose.
Dora também costura esse discurso com referências de nomes fortes da luta por direitos, tipo Angela Davis e Audre Lorde. Isso dá um tom de conversa grande, mas com linguagem de quem fala com gente real, no cansaço real, na rotina real. Fica com cara de livro que nasceu do feed, mas quis virar papel para durar.
O lançamento marca a estreia dela na literatura pela Editora Planeta. E vou te dizer, tem uma coisa poderosa nesse movimento. A mulher que já virou assunto por falar de feminismo e saúde mental agora coloca isso num objeto que você fecha, guarda e volta quando precisar. É tipo um lembrete físico, sem depender do algoritmo estar de bom humor.
Se o público vai ler como diário, como companhia ou como cutucão, aí é com cada um. Eu só sei que Dora entrou na sala dizendo que existir plenamente, sem pedir licença, também dá trabalho. E que esse trabalho merece método, palavra e coragem. Eu, Kátia Flávia, já quero ver quem vai fingir que é só um livrinho bonitinho.