Amiga, senta aqui comigo. Porque antes de virar o homem das Helenas, do sofá da sala e da lágrima coletiva depois do jantar, Manoel Carlos já estava lá, trabalhando quietinho, aprendendo televisão por dentro. Nada de glamour. Era bastidor, texto, corte seco e muita observação da vida real.
Manoel Carlos começou no jornalismo. Redação, texto factual, olho atento para o cotidiano. Isso ensinou uma coisa essencial. Ouvir pessoas. Reparar em gestos pequenos. Entender conflitos que não fazem barulho, mas corroem por dentro.
Quando ele levou isso para a TV, levou junto a alma do repórter. Aquele que observa sem julgar e transforma o comum em história que gruda.
Antes da novela das nove, Manoel passou por programas de variedades, revistas eletrônicas e atrações de grande público, como o Fantástico. Ali ele aprendeu ritmo. Aprendeu a fisgar o espectador rápido. Aprendeu que emoção demais cansa e emoção de menos não pega.
Foi nessa escola que ele entendeu como contar histórias simples, diretas e humanas. O Maneco das nove nasceu ali, longe do horário nobre.
E não parou no Brasil, não. As histórias de Manoel Carlos rodaram a América Latina. Colômbia, Peru, Equador, Argentina, Venezuela. Até os Estados Unidos entraram nessa conversa.
Porque família complicada, amor torto e culpa mal resolvida não precisam de tradução. Mudava o cenário, mudava o sotaque, mas o drama era o mesmo. Universal. Humano. Dolorosamente reconhecível.
O rótulo de autor das novelas das nove é confortável, mas pequeno. Manoel Carlos foi jornalista, criador de programas, roteirista internacional e, acima de tudo, um profundo conhecedor da televisão como linguagem.
Talvez por isso suas novelas parecessem tão próximas da nossa vida. Ele não escrevia de cima para baixo. Escrevia de quem já viu muito, ouviu muito e entendeu que a TV só funciona quando fala baixo, perto e com verdade.
No fim, essa carreira fora dos holofotes explica tudo. O Leblon veio depois. Antes dele, Manoel Carlos já tinha feito o Brasil aprender a assistir, sentir e sofrer. E isso, convenhamos, não é pouca coisa.