Minha gente…
SEGUREM ESSE VIOLÃO, ESSE LENÇO E ESSA TAÇA DE ESPUMANTE, porque o que eu vou te contar hoje é daquelas histórias que fazem a gente colocar Djavan pra tocar na mesma hora.
Sim, meu amor:
DJAVAN QUASE FOI JOGADOR PROFISSIONAL DE FUTEBOL.
Eu estou?
Passada. Travada.
A perna treme igual vibrato de “Oceano”.
Porque imagine um Brasil onde o nosso Djavan, esse homem que escreve como se desenhasse o vento , estaria correndo nos gramados do CSA em vez de compor “Flor-de-Lis”, “Samurai”, “Meu Bem Querer” e “Se”
Isso é tão sério que eu precisei retocar o batom antes de continuar.
Djavan era meia talentoso do CSA, destaque dos campos de Maceió, o menino que fazia a torcida suspirar.
Ao mesmo tempo, aprendia violão sozinho, com revista baratinha de banca.
Era uma bifurcação do destino:
Camisa 10? ou Compositor?
E o Brasil quase perdeu seu poeta da MPB para a lateral do campo.
Mas a música venceu.
E venceu bonito.
E não é por acaso: Djavan compõe como quem joga.
Ritmo de contra-ataque, melodia em tabela, frase que dribla e surpreende.
Ele treina canção como jogador treina finalização.
Antes da fama, Djavan viveu de tudo:Operário de fábrica, Integrante da banda LSD – Luz, Som e Dimensão, tocando Beatles em bailes de Maceió, Crooner de boates do Rio
Eu estou em choque, em êxtase e em transe:
como pode o “poeta hermético da MPB” ter começado como Beatle de Maceió em bailes da periferia?
Isso explica o híbrido encantado dele:
Harmonia pop + baião + jazz + samba + alma nordestina.
Uma alquimia que só ele tem.
Décadas antes do termo “world music” virar modinha:
Carmen McRae gravou “Flor-de-Lis” como “Upside Down” , O álbum “Luz” foi gravado em Los Angeles, Stevie Wonder aparece em “Samurai”, tocando como se dissesse:
“meu querido, seja bem-vindo ao clube dos gênios”
Djavan sempre foi global , antes mesmo da globalização chegar.
Djavan poderia ter sido jogador.
Mas escolheu ser DJAVAN.
E graças a esse pequeno “desvio” do destino, o Brasil ganhou, um poeta musical, um alquimista das harmonias, um visionário global,
um Beatle nordestino, e o maior camisa 10 que a música brasileira poderia ter.
Ainda bem que ele largou o campo e abraçou o violão.