Estava sentada aqui num bar da Puglia, esperando o meu Primitivo chegar, quando o telefone simplesmente explodiu com essa notícia da Operação Narco Fluxo, que meus amigos do Metrópoles soltaram.
Anotei tudo no guardanapo porque esse babado merece ritual. A Polícia Federal acaba de revelar o nome de Deolane Bezerra no coração de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, e eu preciso contar com a devida calma de quem já viu muita novela de horário nobre virar inquérito policial.
O fato, bem explicado, é o seguinte: a PF identificou que Deolane recebeu R$ 430 mil da produtora de MC Ryan SP, movimentou R$ 5,3 milhões em apenas 47 dias entre maio e junho de 2025, e transferiu R$ 1,16 milhão ao Instituto Projeto Neymar Jr numa operação que os investigadores classificaram como estratégia de “limpeza de imagem”. MC Ryan foi preso na última quarta-feira acusado de chefiar um esquema bilionário de lavagem, e caiu na mesma operação o Raphel Sousa, dono do Choquei, que agora tem muito mais assunto próprio do que alheio para administrar. A PF descreve Deolane como uma “conta de passagem”: recebia alto, debitava imediatamente, sem deixar saldo rastreável, numa coreografia financeira que os investigadores chamaram de ecossistema financeiro comum entre os envolvidos.
No digital, o fandom que normalmente enche os comentários de Deolane com corações ficou meio que passeando por outras contas desde que o nome dela apareceu nos relatórios. O @choquei, que normalmente publica esse tipo de coisa com velocidade de tiro, desta vez tem dono preso, então quem cobriu a própria treta precisou ser outra página. Os stories dos aliados do universo MC Ryan SP sumiram ou ficaram com aquele conteúdo ensaiado de “vida que segue”, que todo mundo sabe o que significa. E o Instituto Neymar Jr ainda não se pronunciou publicamente sobre ter recebido R$ 1,16 milhão de uma influenciadora que agora está no centro de uma investigação federal.
Minha leitura, aqui da mesa do bar adriático com o copo na mão, é que Deolane construiu uma carreira pós-BBB em cima de uma persona de mulher imune a julgamento, e isso funcionou muito bem até a PF resolver que “conta de passagem” é categoria jurídica, e não só gíria de bastidor. O histórico dela já tinha uma prisão em setembro de 2024, em Recife, por lavagem e apostas ilegais, da qual saiu relativamente rápido, lido na época como prova de força. Agora o relatório de inteligência diz que capitais ilícitos circulam livremente entre as pessoas do grupo para serem integrados na economia formal, e isso muda completamente o tom da conversa.
O que me mata de curiosidade, e vou confessar aqui só pra vocês, é que movimentar R$ 5,3 milhões em 47 dias deixando zero de saldo rastreável exige uma disciplina financeira que a maioria das pessoas não tem nem pra pagar boleto em dia. Ou Deolane tem uma assessoria econômica de altíssimo nível, ou alguém muito organizado estava no comando dessa coreografia toda. O Metrópoles procurou a defesa, não teve retorno, e o espaço segue aberto. Espaço aberto em inquérito federal tem um gosto muito diferente de espaço aberto em nota de imprensa.