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Kátia Flávia
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De Jesus a Bolsonaro: como Jim Caviezel virou ícone da extrema direita e ainda foi descartado por Mel Gibson

Astro de “A Paixão de Cristo”, o ator hoje abraça causas conspiratórias, estrela filmes queridinhos de conservadores e foi escolhido para viver Jair Bolsonaro em “Dark Horse” ,enquanto Mel Gibson trocou seu antigo Jesus por um rosto mais jovem em “A Ressurreição de Cristo”.

Kátia Flávia

04/04/2026 12h00

primeira imagem mostra jim caviezel caracterizado como jair bolsonaro em filme internacional e6c9d

Ator conhecido pelo papel de Jesus em “A Ressurreição de Cristo” irá interpretar o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro no longa “The Dark Horse” (Foto: Reprodução/Google Imagens)

Kátia aqui, direto da minha Europa , com uma taça de prosecco numa mão, mala pronta pra “curtir” minha Costa Amalfitana ( quanto morro , gente!) na outra e o algoritmo me jogando na cara a mesma notícia: o Jesus de Mel Gibson agora vai encarnar Jair Bolsonaro no cinema. A pessoa sai do Calvário pra ir parar na Polícia Federal de Brasília, veja se eu aguento. E, pra piorar, quando Mel resolve ressuscitar a franquia que fez meio planeta chorar no cinema, simplesmente dispensa o antigo Cristo e pede um Jesus novinho em folha, como quem troca bolsa de coleção passada na liquidação de Milão.

Porque sim, meu amor: Jim Caviezel foi o rosto oficial do sofrimento em “A Paixão de Cristo”, faturou horrores, virou santinho de cabeceira de metade dos católicos praticantes e agora se especializou em outra coisa: virar mascote da extrema direita, da teoria da conspiração e do chororô “sou perseguido pelo sistema”. Enquanto a gente tenta sobreviver ao preço do spritz na Piazza San Marco, ele está na América prometendo salvar crianças de cabala satânica e, de brinde, reabilitar a imagem de Bolsonaro na telona. É o MCU cristão bolsonarista, versão orçamento limitado.

A carreira, que lá atrás parecia que ia emendar um Oscar no outro, tomou o caminho daquelas vielas de Veneza que dão num beco sem saída. Depois de “A Paixão de Cristo”, Hollywood olhou pra ele e pensou: ótimo, maravilhoso, mas talvez intenso demais pra comédia romântica de verão. Ele virou o cara que fez Jesus tão convincente que ninguém mais sabia onde acabava o personagem e começava o sermão. Foi empurrado pra TV, foi virando nome de nicho, até encontrar um público que o recebesse de braços abertos: congressinho conservador com palco, luz, microfone e muito fiel querendo ouvir sobre o mal infiltrado em tudo, menos no pix deles.

Foi aí que Jim abraçou o tour QAnon: congresso cristão aqui, conferência conspiratória ali, sempre com aquele discurso de que existe uma elite devoradora de crianças, vacinas são o novo apocalipse e a indústria do entretenimento é uma máquina demoníaca que o persegue. Ele reclama que Hollywood o cancelou, mas faz fila em evento que vende ingresso caro e camiseta “Deus acima de todos” em versão internacional. E o público, meu bem, aplaude como se estivesse vendo o sermão da montanha em 4D, com direito a popcorn e bandeira dos Estados Unidos tremulando atrás.

Quando entra “Sound of Freedom” na história, a coisa vira franquia. Um filme pequeno, cheio de controvérsia, abraçado pela direita cristã como se fosse manual oficial da luta contra o mal. Caviezel faz o herói que salva crianças, desce o verbo em entrevistas, linka tudo às teorias que já circulam nesses grupos e, assim, se consolida não como ator, mas como santo padroeiro da paranoia política. Enquanto isso, os grandes estúdios fazem o quê? Fingem que não viram, mudam de calçada, preferem não ter o nome colado nessas narrativas que explodem no X, no Telegram e em tudo quanto é buraco de internet.

E Mel Gibson, que lá atrás foi o cupido dessa relação entre Jim e Jesus, toma a decisão mais pragmática do rolê: vai fazer “A Ressurreição de Cristo” e simplesmente troca o elenco inteiro. Dois motivos oficiais: passou tempo demais desde o primeiro filme e ninguém quer torrar milhões em rejuvenescimento digital pra contar uma história que acontece só dias depois da crucificação. Tradução: meu amor, o tempo passou pra todo mundo, o orçamento não é infinito e a versão nova do Jesus vem com rosto escandinavo em alta definição. Jim Caviezel fica de fora do revival que poderia ter sido a sua grande volta.

Só que porta que se fecha em Jerusalém se abre em Brasília, e é aí que entra “Dark Horse”. O projeto é vender Bolsonaro como azarão heroico que sobrevive a tudo e emerge mais forte, e quem melhor pra isso do que o Jesus oficial do cinema cristão, hoje reverenciado pela direita conspiratória? Escalam Caviezel, jogam ele num terno, cabelo penteado pra trás, faca em Juiz de Fora, cena em palanque, lágrima no canto do olho. Os bastidores aparecem em vídeo vazado, stories emocionados de aliados, fio de X prometendo “a verdadeira história que a mídia escondeu”. E o brasileiro, cansado, abre o celular no sofá e vê Jesus com cara de mito: é muito pra uma sexta‑feira.

É o casamento perfeito: de um lado, um ator ressentido, convencido de que foi sacrificado por Hollywood por ser cristão demais e politicamente incorreto; do outro, um movimento político que vive de se apresentar como vítima de perseguição, injustiça e complô global. A narrativa cola tão direitinho que eu, aqui na lancha pra Capri imaginária, quase vejo os cartazes: “Ele deu a vida na cruz, agora dá o sangue na urna”. É uma estética de martírio reciclada, trocando coroa de espinhos por faixa presidencial e cenoura com bacalhau por churrasco no quintal da casa do amigo.

No fim, a trajetória de Jim Caviezel é a versão live action daquela amiga que fez muito sucesso na adolescência, brigou com todo mundo na escola, sumiu por uns anos e reapareceu como coach espiritual de político polêmico. O que era promessa de carreira gigante virou nicho altamente engajado, com ele confortavelmente instalado no altar da extrema direita internacional, fazendo filme que fala para convertidos e discursando para plateias que já o veem como profeta. E Mel Gibson, que abriu a porta desse templo lá atrás, agora reza em outro altar com seu Jesus novinho, enquanto o antigo Cristo se prepara para ressuscitar, não em Jerusalém, mas na cela cenográfica da PF.

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