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Kátia Flávia
Kátia Flávia

De blocos de concreto a empreendimentos sofisticados: visão e ousadia na trajetória de Thiago Castilho 

Fundador da Elemental Construtora, Thiago Castilho construiu uma trajetória de mais de duas décadas investindo em tecnologias inovadoras no Brasil, e erguendo, tijolo por tijolo, seu nome no mercado imobiliário 

Kátia Flávia

25/03/2026 12h30

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O empresário deu inicio ao seu primeiro empreendimento aos 14 anos de idade (Foto: Divulgação)

Ele chega antes do horário marcado, cumprimenta com um firme aperto de mão e escolhe a cadeira mais próxima da janela sem que ninguém precise indicar. Senta, cruza os braços levemente sobre a mesa, e espera. Alto, magro, cabelo castanho cortado curto, jeito quieto, tem mais o perfil de quem prefere ouvir a discursar. Quando fala, escolhe as palavras com cuidado, como quem aprendeu, a custo, que nem tudo precisa ser dito de uma vez. 

Aos 43 anos, Thiago Castilho, fundador da Elemental Construtora, poderia estar contando conquistas. Em vez disso, começa pela babá. Para entender o empresário, é preciso entender o menino. E para entender o menino, é preciso ir ao interior de Minas. 

Ele nasceu em Belo Horizonte, mas foi só de nascimento mesmo. A família veio do interior de Minas, e para o interior voltou. A infância aconteceu em João Pinheiro, no noroeste do estado, uma cidade pequena o suficiente para que todo mundo se conhecesse e o campo fosse a extensão natural da vida. É o mesmo interior que João Guimarães Rosa passou a vida inteira transformando em literatura aquele sertão mineiro onde o Rio São Francisco corre largo e o tempo tem outro peso. 

Não havia futebol nessa história, ao menos não para ele. Havia cavalos, pescaria, mato, e uma conexão com a natureza que o acompanha até hoje. “Minha mãe tinha um problema de saúde, e eu dizia pra ela: vai naquele lugar que eu pesco, você vai melhorar lá. Eu sempre achei que a natureza curava”, conta. 

Seus pais eram pessoas da área acadêmica e da educação, a mãe, professora e diretora de escola; o pai, formado em teologia, um homem de perfil filosófico, de gosto refinado para música, de raciocínio pausado. De cada um, Thiago diz ter herdado algo. Da mãe, a disciplina e a garra. Do pai, o gosto por poesia – ele escreve versos desde os dez anos, hábito que mantém discretamente. Mas é de uma terceira figura que ele fala com o tipo de afeto que não se aprende nem se fingi, a babá Mimia. 

Uma mulher simples, sem instrução formal, mas com uma sabedoria que ele descreve como “absurda”. “Ela dizia: não revida o mal com o mal. E vivia isso, se ganhava um dinheirinho, dividia com a vizinha.” O que Thiago considera seu lado mais humano – a empatia, a preocupação com as pessoas à sua volta, a generosidade com quem trabalha com ele – ele atribui a Mimia. “Ela era um anjo”, diz, sem soar clichê. 

A família se mudou para Patrocínio, depois para Pedralva, no sul de Minas. E foi ali, que o empreendedor apareceu de vez. Thiago tinha um videogame e Pedralva era um interior onde os cavalos ainda andavam soltos na memória das crianças. Ele foi lá e trocou o videogame por uma égua. 

“Foi meu primeiro negócio de verdade”, diz. Depois veio a amizade com um senhor chamado Tadeu, catireiro de cavalos experiente, que o levou para o mundo das negociações. Compravam animais por cinquenta reais nas fazendas vizinhas e revendiam por cem, cento e cinquenta. Thiago chegou em casa algumas vezes com uma moto ou com dinheiro que os pais não conseguiam explicar de onde vinha. “Meu pai perguntava o que era aquilo. Até ele descobrir, eu já estava em outro negócio.” 

Com quatorze anos, alugou uma fazenda para colocar cavalos de terceiros a pasto, cobrando por cabeça. Era atacado e varejo de animais, com a lógica de um adulto numa cabeça de adolescente. O dinheiro pagava as festinhas, os sonhos pequenos de quem está crescendo. E a brincadeira, porque ele mesmo chama assim, já era, na essência, uma empresa. 

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Thiago Castilho está se preparando o que talvez seja o movimento mais ousado de uma carreira construída sobre ousadia. (Foto: Divulgação)

Aos dezessete anos, Thiago foi para Uberlândia. Aos dezoito, ele soube que seria pai. A namorada estava grávida e os dois ainda muito jovens, as famílias sem muito entusiasmo com a notícia. E ali, naquele momento, algo mudou de natureza. “Deixou de ser brincadeira. Eu precisava sustentar uma família.” 

Ele conseguiu emprego como atendente de call center no Grupo Algar. Trabalhou com afinco, cresceu na empresa, aprendeu. Mas o emprego nunca foi o destino, foi o ponto de partida para o que viria. Thiago queria empreender, e começou a pensar com método. “que produto não é perecível, tem bom giro e boa margem de lucro?” A resposta que encontrou depois de meses pesquisando foi o bloco de concreto. 

O problema era que ele não tinha dinheiro nenhum. Só criatividade. E a solução veio em partes. Conseguiu um lote emprestado do pai de sua então namorada. Convenceu um fornecedor de material de construção a entrar como parceiro – ele receberia em blocos, não em dinheiro. Depois pegou um ônibus para São Paulo para negociar uma máquina com um fabricante chamado Francisco Aguilar. Chegou lá como o que era, um rapaz de dezoito anos sem capital, sem histórico, sem garantias. “Se eu não te pagar, você pega a máquina de volta”, argumentou. Aguilar achou curiosa a proposta, e mesmo sem muita certeza, mandou a máquina. 

Thiago começou a produzir blocos no chão, literalmente. Depois de muitas tentativas e produções descartadas até acertar o traço correto do concreto, o produto ficou bom. Um corretor chegou até ele, viu o bloco e disse: “vamos construir casas com isso”. E surgiu a oportunidade de fazer um loteamento com vinte e sete unidades. 

O que veio em seguida foi, ao mesmo tempo, o maior erro e a maior escola de sua vida. No meio da obra, a Caixa Econômica Federal mudou uma regra e passou a exigir que as ruas do loteamento fossem pavimentadas antes de aprovar o financiamento das unidades. Era evidente que Thiago não tinha dinheiro para o asfalto. Estava devendo o dono do terreno, o fornecedor de material e a mão de obra. Com vinte e um anos de idade, sem investidor, sem pai empreendedor, sem rede de proteção, ele olhou para a obra inacabada e quase desistiu. 

Quase. Conseguiu um investidor que entrou apenas para concluir a obra, e Thiago não ficou com lucro nenhum, só com as dívidas honradas e a reputação intacta. As vinte e sete casas foram entregues. Os clientes, no entanto, ficaram insatisfeitos com os atrasos. No interior, onde todo mundo se conhece, a palavra se espalhava rápido. Novos negócios pararam de aparecer por um tempo. 

“Nonada”, diria Riobaldo. Quase nada – e ao mesmo tempo tudo. Era do zero que precisava recomeçar. “A vida é uma faculdade particular cara”, diz Thiago hoje, com a serenidade de quem já digeriu bem a lição. “Eu paguei caro para aprender. Não necessariamente em dinheiro, mas em estresse, em tristeza, em desespero. Mas tudo isso foi aprendizado.” O que ele aprendeu, principalmente, foi dar passos proporcionais ao tamanho das pernas, planejar antes de executar e nunca, em nenhuma circunstância, deixar de acreditar em si mesmo. 

Foi nesse período de reconstrução que Thiago encontrou aquilo que mudaria definitivamente sua história. Ele queria um sistema construtivo mais industrial, mais rápido, mais escalável, algo que permitisse, nas palavras dele, “ser o Henry Ford da construção civil”. E aí ele descobriu o wood framing, estrutura leve em madeira amplamente usada nos Estados Unidos, e fez sua primeira obra com a tecnologia, uma igreja em Brasília, encomendada por um conhecido de volta dos Estados Unidos. 

A madeira, porém, enfrentava resistência no Brasil – o pinus era visto como material de segunda linha. Thiago pesquisou o equivalente em aço e encontrou o steel framing. Em 2002, 2003, quando a técnica era praticamente desconhecida no país, ele importou equipamentos, adaptou processos e começou a usá-la.  

“Eu comecei a utilizar o steel framing no Brasil em meados de 2003, por entender que era um processo mais racional, mais limpo, que eu poderia desenvolver em alta escala.” O sistema levava menos tempo de obra, tinha orçamento mais previsível e gerava menos desperdício. Para quem fazia cálculos apertados com capital escasso, era perfeito. 

A popularização do steel framing no Brasil só viria depois de 2010. Thiago já estava há quase uma década trabalhando com a tecnologia quando ela se tornou assunto. A vantagem competitiva que isso lhe deu seria decisiva anos mais tarde. 

A virada para o mercado de alto padrão chegou de um jeito que ele não havia planejado. Um amigo de Brasília o conectou a Marco Brasil, músico e personalidade pública, que queria construir uma casa nas margens de uma represa no Paraná. Thiago prometeu entregar a obra em noventa dias. Entregou em vinte e quatro. Quando Marco voltou de uma turnê e encontrou a casa pronta, uma amizade se formou – e com ela vieram outros nomes. Gusttavo Lima. Matheus, da dupla com Jorge. Casas monumentais, todas em steel framing – sim, aquela casa do Gusttavo Lima. 

“Com o Gusttavo e com o Matheus, eu comecei a enxergar outro mundo”, diz Thiago. Um mundo onde as pessoas conheciam esse tipo de construção porque tinham viajado, porque tinham vivido em outros países, porque o pai de Matheus queria uma casa como as que vira na Holanda. Thiago percebeu que estava diante de um mercado diferente, mais exigente, mais informado, disposto a pagar pela inovação. E começou, deliberadamente, a migrar. 

Em paralelo, outra frente se abriu. Quando o governo federal passou a disponibilizar obras públicas de saúde em steel framing – UBSs, creches, hospitais – e a Caixa começou a financiar construções no sistema, quase ninguém no Brasil sabia executar. Thiago sabia. Uma empresa ganhou uma licitação sem ter a expertise técnica e o contratou. Ele fez a obra e depois fundou a Elemental Engenharia, em 2012, para disputar as próprias licitações. 

O resultado foi uma sequência de contratos que poucos conseguiriam imaginar para um ex-produtor de blocos de concreto de Uberlândia. Mais de vinte hospitais, UBSs e unidades de saúde construídos em Minas Gerais e em outros estados. Mais de mil obras no total – entre casas, apartamentos e equipamentos públicos. A Elemental foi crescendo, o portfólio foi se consolidando, e Thiago foi deixando para trás a imagem do jovem empreiteiro para se tornar, de fato, um incorporador. 

Hoje, Thiago Castilho prepara o que talvez seja o movimento mais ousado de uma carreira construída sobre ousadia. Ele adquiriu mais de seis milhões de metros quadrados às margens da represa de Três Marias, em Minas Gerais, para criar um empreendimento de alto padrão em parceria com o Grupo Caras. O projeto, chamado Caras Mar Três Marias, é a síntese de tudo que ele aprendeu – sobre construção, sobre mercado, sobre o tipo de vida que as pessoas de sucesso buscam quando finalmente podem escolher. A aposta na segunda casa, para descanso e refúgio das famílias.  

Mas essa é outra história. Esta é a trajetória de um menino do interior que trocou um videogame por uma égua e nunca mais parou de fazer negócios. Que perdeu tudo em sua primeira incorporação e usou a derrota como combustível. Que apostou em uma tecnologia que ninguém conhecia e esperou pacientemente o mercado chegar até ele. Que fez hospitais, mansões e um nome no setor onde a maioria desiste nas primeiras curvas. O mineiro chegou lá? Ele mesmo prefere não dizer. “Ainda tenho muito para conquistar”, responde, com aquele sorriso contido de quem sabe o que está fazendo.  

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