Eu vi e pensei. Daniela Mercury acordou e escolheu o caos gostoso. Em vez de aparecer lá do alto, toda deusa intocável, ela começou o Carnaval 2026 do jeito mais perigoso e mais esperto possível. No asfalto, no meio da pipoca, fantasiada, mascarada e cercada por gente em estado de felicidade descontrolada no circuito Barra-Ondina, em Salvador. Antes de subir ao trio, ela já estava ali, cantando, sendo puxada, sendo erguida, abraçada pela multidão como se fosse parente que chegou de surpresa.
A cena ficou com cara de filme. Daniela no meio do povo, puxando as primeiras músicas dali, sentindo o empurra-empurra, parando para selfie, cantando em coro refrães de “mulher de poder” e fazendo o chão virar palco. Eu chamo isso de estratégia com purpurina. Porque nada dá mais autoridade no Carnaval de Salvador do que ser engolida pela pipoca e continuar cantando, sem perder o sorriso e sem perder o controle do enredo.
Nas redes, ela disse que queria sentir o calor do povo do chão mesmo, como uma realização pessoal. E pronto, a internet fez o que a internet faz. Choveu vídeo, choveu comentário, teve fã chamando de revolução, teve gente dizendo que foi aula de protagonismo feminino. Eu só acrescento uma coisa. Quando Daniela decide, o Carnaval obedece.
E aí vem o detalhe que deixa tudo ainda mais saboroso. 2026 marca 30 anos do circuito Barra-Ondina, o trajeto que ela ajudou a consolidar nos anos 1990 e que mudou a geografia da folia. Três décadas depois, a dona do mapa desce do trio para se jogar na própria invenção. É quase um gesto de autora assinando a obra com o corpo. E tem recado, claro que tem. Camarote pode brilhar, área vip pode fazer pose, mas a vitrine que vale mesmo continua sendo a rua, a pipoca, o abraço apertado e o povo cantando junto.
Se alguém ainda duvida de quem manda no axé, eu recomendo rever os vídeos. A Rainha não começou a folia. Ela começou uma narrativa. E Salvador, como sempre, entrou no ritmo sem fazer pergunta.