Estava descendo a costa amalfitana quando meu celular começou a explodir com mensagens de gente me perguntando se eu já tinha visto. Gente, eu estava tentando apreciar o pôr do sol em Positano, mas o anime de Arakawa não esperou por mim. Larguei tudo, abri a Crunchyroll e fui entender o que estava acontecendo com este país.
O primeiro episódio de Daemons of the Shadow Realm apresenta os gêmeos Yuru e Asa num vilarejo de montanha com aquela paz suspeita de quem sabe que o segundo ato vai destruir tudo. Asa fica trancada cumprindo um “dever” que ninguém explica, os adultos trocam olhares de quem guarda segredo de guerra, e aí, do nada, helicópteros rasgam o céu medieval, soldados aparecem armados até os dentes e a vila vira inferno em menos de três minutos. Arakawa não manda aviso.
A internet enlouqueceu. O episódio virou assunto imediato no X, com gente comparando a virada ao primeiro episódio de Attack on Titan, reviewers colocando entre os melhores estreantes da temporada e o IGN Brasil declarando que é o anime que você não pode perder agora. Quem assistiu de madrugada saiu mandando áudio pra todo mundo. Quem ainda não tinha visto ficou em pânico social.

Os tais daemons do título funcionam como uma mistura de Stand de JoJo com espírito de yokai, cada um ligado a um usuário, e o anime mostra a pancadaria sem abrir o manual de instruções, o que é exatamente o tipo de decisão que ou funciona brilhantemente ou irrita profundamente. No caso de Arakawa, funciona, porque a relação de Yuru com essas criaturas fica só sugerida, e aí o mistério cresce junto com a pergunta óbvia: por que tanta gente poderosa quer matar uma vila inteira por causa de dois gêmeos?
Tem gente reclamando de ritmo agridoce, de 3D aqui e ali, de informação demais em 24 minutos. Essas pessoas estão certas e ao mesmo tempo completamente perdendo o ponto. Hiromu Arakawa passou décadas nos ensinando que ela sabe exatamente o que está fazendo, e começar um anime destruindo a ilusão de paz do protagonista em poucos minutos não é pressa, é declaração de intenção. Apertem o play antes que vire obrigatório e vocês tenham que fingir que assistiram desde o começo.