Amores, sentem que lá vem história boa. Daquelas que a Sapucaí adora fingir surpresa, mas consome com glitter até o último grão. Eu, Kátia Flávia, estava só retocando o batom quando a coleira reapareceu no meu radar, reluzente, simbólica e pronta para causar urticária coletiva.
Em 1998, Luma de Oliveira atravessou a Avenida com “Eike” pendurado no pescoço e deixou metade do Brasil chocado e a outra metade anotando mentalmente para repetir em alguma festa cafona. A imagem virou relíquia pop, dessas que voltam sempre que alguém quer provocar discussão sobre amor exibido, poder masculino e mulher transformada em vitrine ambulante. Foi polêmica instantânea, analisada por psicanalistas de sofá e debatedoras de mesa redonda com cafezinho frio.
Corta para 2026. Entra Virginia Fonseca, rainha de bateria, empresária, máquina de engajamento e protagonista de um roteiro que faria qualquer autor de novela das nove pedir aumento. A fantasia reaparece, agora com body preto ultracavado, felino de laboratório fashion, ensaio feito na mansão de três andares do namorado e a coleira atualizada com o nome Vini Jr., o Neymar do imaginário global que não pisa mais em poça rasa.
Nada ali acontece por acaso, meus anjos. A porta da mansão aberta para o gshow, o ensaio calculado para nascer viral, a foto enviada primeiro para o amado aprovar, tudo organizado para alimentar o grande reality que nunca sai do ar. A internet assiste, comenta, briga, faz thread, enquanto a narrativa se fecha com perfeição digna de final de capítulo.
E aí começa o chilique coletivo. Tem quem grite submissão, tem quem acuse retrocesso, tem feminista de timeline em estado de alerta máximo porque, veja bem, mulher poderosa usando o nome do namorado no pescoço parece curto-circuitar algumas cartilhas. Eu observo do meu camarote emocional e rio. Riso de quem já viu esse filme em VHS e agora assiste em streaming 4K.
Virginia não entrou nesse jogo sem saber as regras. Ela construiu império, negocia contratos milionários, escolheu a Sapucaí depois de dizer vários nãos e decidiu, sim, exibir o afeto como parte do pacote. A coleira vira símbolo de romance performado, produto visual, cena pronta para render curtida, crítica e conversão. Casal hoje é marca registrada, com direito a spin-off e linha de produtos.
O incômodo que vejo não nasce da coleira em si. Ele vem da dificuldade nacional de lidar com mulheres que misturam poder, desejo, dinheiro e afeto no mesmo look. Parte do público ainda quer escolher rótulo rápido, musa submissa ou heroína independente, sem perceber que a vida real, principalmente quando vira conteúdo, adora bagunçar essa ordem.
Enquanto a discussão ferve nos comentários, a máquina gira feliz. Views sobem, contratos se multiplicam, o Carnaval ganha mais um capítulo para a antologia da polêmica brasileira. Luma sabia disso em 1998. Virginia sabe disso agora. A Sapucaí segue fazendo o que faz de melhor, transformar gesto pessoal em espetáculo coletivo.